Título: Juro e câmbio fazem investimento ficar abaixo do esperado
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 02/05/2005, Brasil, p. A3

As perspectivas para o investimento neste ano não são das mais animadoras. Números da construção civil e de bens de capital sugerem que a formação bruta de capital fixo (FBCF) caiu algo como 1,5% a 2% no primeiro trimestre de 2005 em relação ao quarto trimestre do ano passado, na série livre de influências sazonais. Os analistas já revisam para baixo suas estimativas para o crescimento no ano da FBCF, que mede o investimento na construção civil e em máquinas e equipamentos. O banco Credit Suisse First Boston (CSFB), que projetava expansão de 8% em 2005, já estima que, na melhor das hipóteses, o número vai ficar em 5,4%. Segundo analistas, com juros elevados e câmbio valorizado, muitos empresários têm adiado projetos de ampliação de seus negócios, à espera de uma redução das incertezas quanto ao rumo dos dois indicadores. O preocupante é que o investimento é fundamental para ampliar a capacidade de o país crescer de forma sustentada a taxas mais altas. Em 2004, a FBCF cresceu 10,9%, mais do que o dobro dos 5,2% do PIB. Foi um bom desempenho, embora o resultado do quarto trimestre tenha decepcionado. Houve um recuo de 3,9% em relação ao terceiro, creditado em grande parte ao fato de que o IBGE contabilizou como exportações as vendas de duas plataformas da Petrobras. A questão é que ocorreu apenas uma operação contábil e não uma exportação. A empresa vendeu as plataformas para uma subsidiária no exterior, mas que atua em território brasileiro. Como a absorção doméstica de bens de capital é calculada pela soma da produção interna e das importações e pela exclusão das exportações, o critério do IBGE para contabilizar as plataformas da Petrobras derrubou a variação da FBCF no quarto trimestre. O desempenho dos insumos da construção civil e dos bens de capital no começo do ano, porém, sugere um quadro desfavorável para o investimento, como diz a economista Mônica Baer, da consultoria MB Associados. Em janeiro e fevereiro, a produção de insumos da construção civil cresceu apenas 1,8% em relação ao mesmo período de 2004. É um resultado fraco. Entre outubro e dezembro de 2004, por exemplo, houve crescimento de 3,9% em relação ao mesmo período de 2003. A situação da absorção doméstica de bens de capital também é sofrível. Em janeiro e fevereiro, a produção doméstica aumentou 3,9% em relação ao primeiro bimestre de 2004. No período, as importações aumentaram 24% e as exportações, 55%. Como as vendas externas cresceram bem mais que as importações, isso reduz a absorção doméstica de bens de capital, o que não ajuda a expansão da capacidade de oferta da economia. No primeiro bimestre, a absorção doméstica caiu algo como 4% ante mesmo período de 2004. O economista-chefe da corretora Convenção, Fernando Montero, avalia que a combinação de juros elevados e dólar barato faz muitos empresários adiar investimentos, mas, pelo menos por enquanto, eles não têm sido cancelados. Mônica concorda com Montero, afirmando que, quando vê de um lado o aumento contínuo da Selic e de outro o dólar barato, muita gente deixa o projeto na gaveta por mais algum tempo. Montero aponta ainda o mau desempenho do setor de máquinas agrícolas, que caiu 26,7% no primeiro bimestre em relação ao mesmo período de 2004, como uma explicação para o comportamento do investimento. Para o primeiro trimestre, ele prevê uma queda de 1,5% da FBCF em relação ao quarto, em termos dessazonalizados. Ele ressalva que desde meados de 2004 há dificuldades em prever o resultado das contas trimestrais a partir dos números mensais da produção industrial. Por isso, a estimativa deve ser vista com cuidado. O CSFB prevê uma queda de 2% no primeiro trimestre. Se concretizada, ela tornaria muito otimista a projeção de 8% de crescimento no ano. Para o banco, a FBCF pode fechar 2005 com expansão de 5,4% se o ritmo de crescimento dos três primeiros trimestres de 2004, de 4,3%, for retomado. Com um aumento da FBCF pouco superior ao crescimento da economia, de 3% a 4%, a taxa de investimento vai crescer pouco em relação ao PIB. Mônica e Montero acreditam que o indicador, que fechou em 19,6% em 2004, deve atingir os 20% neste ano, um porcentual baixo. O CSFB estima que, para crescer de forma sustentada acima de 4%, a taxa deve ser de 22% do PIB. Mas nem tudo é motivo para pessimismo. Os economistas do CSFB lembram que os números recentes podem estar subestimando a realidade da construção civil. Em janeiro e fevereiro, a produção de aços planos cresceu apenas 0,5% em relação a janeiro e fevereiro de 2004, desempenho muito fraco se comparado à produção de cimento e clínquer, outros dois insumos da construção, que subiram 11,8% no período. O CSFB estima que o setor de aços longos se desacelerou devido aos altos estoques trazidos de 2004. À medida que o nível de estoques for ajustado, os números podem mostrar um panorama mais favorável para o setor. Outro indicador positivo é a produção de bens de capital sob encomenda. Em janeiro e fevereiro, a produção cresceu11,16% em relação a 2004. Montero diz que é um bom sinal, pois a compra de máquinas sob encomenda mostra uma decisão mais cuidadosa de investimento.