Título: CNI identifica limitações no comércio com a Índia
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 13/10/2004, Brasil, p. A-4
Apesar dos expressivos mercados consumidores, o comércio bilateral entre Brasil e Índia tem poucas chances de deslanchar, demonstra estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), obtido pelo Valor. Segundo o coordenador da unidade de pesquisa da CNI, Renato da Fonseca, o principal problema é a alta similaridade da pauta de importação. Tanto Brasil quanto Índia necessitam de produtos manufaturados, como máquinas e equipamentos. E nenhum dos dois países tem condições de oferecer tais produtos ao outro a preços competitivos. Além de qualidade e preço baixo, também entra na conta a distância e a falta de um fluxo constante de navios. "Para o Brasil, é possível achar produtos manufaturados a preços competitivos nos Estados Unidos ou na União Européia. Já para a Índia, Japão e Cingapura são fornecedores naturais", explica Fonseca.
O intercâmbio entre Brasil e Índia cresceu muito. Na última década, o fluxo comercial entre os dois países aumentou em, média, 30% ao ano, passando de US$ 216 milhões em 1993 para mais de US$ 1 bilhão em 2003. O estudo da CNI demonstra, porém, que o crescimento não foi resultado de diversificação das pautas de exportação. Pelo contrário. O aumento do fluxo de comércio se deve a trocas entre petróleo brasileiro e óleo diesel indiano, por conta de um acordo firmado entre a Petrobras e a Reliance Petróleo. De acordo com a CNI, o acordo, vencido em 2003, foi responsável por mais de 90% do crescimento das exportações brasileiras para a Índia nos últimos dois anos. Entre 2001 e 2003, os cinco principais produtos da pauta de exportação responderam por 73% do valor das vendas. Apenas petróleo bruto e óleo de soja foram responsáveis por 68% das vendas. Entre 1996 e 1998, os cinco principais produtos da pauta de exportação brasileira para a Índia respondiam apenas por 41% do total das vendas. Pelo lado das exportações, as duas economias são complementares. O Brasil é competitivo em produtos básicos agrícolas e em produtos semimanufaturados de origem agrícola intensivos em trabalho. Já a Índia se destaca por seus produtos semimanufaturados de origem mineral e pelos produtos manufaturados intensivos em trabalho. A CNI está realizando uma série de estudos sobre as perspectivas para o comércio bilateral brasileiro. Já foram avaliados China, México, Japão e União Européia. E também está sendo preparado um estudo sobre os Estados Unidos. Segundo Fonseca, o objetivo é munir os empresários de informações, que possam auxiliar nas negociações de acordos de livre comércio em curso. De todos os países analisados pela CNI, a Índia apresenta as menores perspectivas de crescimento do comércio, embora tenham sido identificados produtos, como óleo de soja ou algodão, em que o Brasil ainda pode incrementar suas vendas. No entanto, a negociação que parece estar mais próxima de uma conclusão é com os indianos. Deve ser selado ainda esse ano um acordo de preferência tarifária fixa, que incluirá alguns produtos. O objetivo é buscar, no futuro, um acordo de livre comércio.