Título: Furlan trabalha para intensificar o comércio com EUA
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 02/05/2005, RUMOS DA ECONOMIA, p. F23
Representantes do setor produtivo encaminharam, a pedido do Valor, perguntas ao ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan. As principais dúvidas referem-se à balança comercial, negociações internacionais e atração de investimento estrangeiro. Os entrevistadores do ministro foram: Rogelio Golfarb, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), José Fernandes Pauletti, da Associação Brasileira de Prestadoras de Serviço Telefônico Fixo Comutado (Abrafix) e Antônio Ernesto de Salvo, presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Veja abaixo as perguntas ao ministro: Rogelio Golfarb:O crescimento do comércio internacional está cada vez mais atrelado a acordos de comércio entre blocos e entre blocos e países. O Brasil tem um número inexpressivo de acordos de comércio. Qual a política do governo para ampliar o leque de acordos internacionais de comércio? Luiz Fernando Furlan: Os acordos do Brasil atualmente são conduzidos pelo Itamaraty por intermédio do Mercosul. E tem apresentado resultados no que diz respeito a facilidades de comércio. Agora, acabamos de concluir acordos com a Índia e África do Sul, que deverão começar a surtir efeitos. Por outro lado, o Brasil é um "global trader" com perfeita distribuição do fluxo de comércio entre União Européia (UE), Nafta e América Latina, fora as demais regiões. Entretanto, é importante salientar que o incremento do comércio poderá dinamizar-se bastante a partir da assinatura de acordos com nossos grandes parceiros comerciais, com ênfase no acordo Mercosul- UE e a implementação de uma Alca nos moldes que possam representar ganhos recíprocos. Estamos também trabalhando uma agenda positiva que amplie o intercâmbio comercial do Brasil com os EUA, que continuam sendo nosso principal parceiro comercial. Nesta terça-feira, por exemplo, estarei em Washington aonde vou me encontrar com o novo secretário de Comércio americano, Carlos Gutierrez, e conversar sobre as possibilidades de intensificação do comércio bilateral e de um memorando de cooperação entre o nosso Ministério e o Departamento de Comércio americano. José Fernandes Pauletti:Qual a importância da manutenção de contratos e garantia de respeito às normas estabelecidas para a atração de investidores estrangeiros e estímulo ao crescimento do país? Furlan: O governo Lula tem demonstrado que o Brasil mantém fidelidade contratual e transparência das regras estabelecidas, formando um conjunto de alta credibilidade ao investidor que depende de normas e regras estabelecidos no longo prazo. O fato de atrairmos fortes investimentos nos leilões oferecidos na área de transmissão de energia, com significativa participação de capital estrangeiro, demonstram esta confiabilidade. O princípio do respeito ao contrato está mais que evidenciado neste governo. O que não impede que se ambas as partes quiserem evoluir para melhorar as condições de contratos, podem fazê-lo dentro dos parâmetros anteriormente estabelecidos. Não há contenciosos relevantes com investidores internacionais. Um bom exemplo, são os projetos de participação pública e privada cujo caráter é de uma parceria duradoura e sustentável. O Brasil é um dos poucos países, em desenvolvimento, que apresentou uma lei específica sobre este assunto, demonstrando o interesse do Estado, em seus diversos níveis juntamente com a iniciativa privada, de promover o desenvolvimento sustentado em ações comunitárias empresariais. É de se esperar que tenhamos os primeiros projetos lançados neste ano, demonstrando a condição comparativa do Brasil frente aos modelos existentes em outros países. O Brasil, pelos fatos acima, hoje, não só é um grande captador de investimentos estrangeiros, mas também se lança como investidor no cenário internacional. No ano passado, tivemos investimentos brasileiros no exterior na ordem de US$ 9,4 bilhões, o que demonstra que empresas brasileiras buscam sua expansão não só na exportação, mas também na ativa participação nos mercados internacionais. O presidente Lula tem dado ênfase em encorajar o empresário brasileiro em se tornar internacional. Não existe País de primeiro mundo, sem empresas de primeiro mundo. Tenho convicção de que estamos iniciando um longo processo de crescimento sustentável no Brasil. O investidor, hoje, ao ver o Brasil como um país âncora da América do Sul investe em um mercado de proporções continentais e de sustentabilidade. Antônio Ernesto de Salvo:Nossas exportações, principalmente as do setor primário, crescem cada dia mais. Porém, se nota um permanente interesse dos importadores em adquirir matérias-primas e não produtos acabados. O senhor entende que seja possível reverter este quadro? Furlan: É verdade que os produtos do setor primário, como a soja e o minério de ferro, têm um peso importante em nossa pauta de exportação. Mas um fato muito importante, e que contribui para os crescentes recordes da balança comercial, é o crescimento das vendas de manufaturas, produtos com alto valor agregado. As exportações brasileiras vêm apresentando alterações significativas desde a década de 80. Nota-se, por exemplo, que a participação dos bens industrializados registrou gradual avanço em relação aos produtos básicos. Enquanto, em 1980, os básicos representavam 42,2% e os industrializados, incluindo semimanufaturados e manufaturados, totalizavam 56,5%, em 2003, os industrializados atingiram 54,3% e os básicos, 29,0% do total exportado. Agregar valor aos produtos exportados é uma determinação do presidente Lula. Investimentos em tecnologia e nos canais de distribuição podem contribuir. Antônio Ernesto de Salvo:Como o senhor vê a perspectiva de mudança do atual cenário mundial de grandes acordos - leia-se Nafta, Mercosul e União Européia - para acordos bilaterais, que talvez tragam ganhos mais rápidos aos parceiros? Furlan: Na atual conjuntura internacional, os acordos bilaterais têm se mostrado de extrema importância. As perspectivas para o Mercosul, por exemplo, são boas porque estamos iniciando negociações com Canadá e México. Esses dois países, por serem membros do Nafta e peças-chave na Alca, podem facilitar os avanços nas negociações com os EUA. Estamos negociando ainda com os países do Golfo e com os países centro-americanos. Sem contar as conversas com Israel, Egito, Marrocos, Paquistão e outros países interessados em negociar com o Mercosul. Temos que avançar em todas as frentes, pois esta dualidade é uma tendência mundial e vários países vêm se moldando a ela.