Título: Produtor pode reduzir investimentos
Autor: Mauro Zanatta
Fonte: Valor Econômico, 02/05/2005, RUMOS DA ECONOMIA, p. F37

Com o pé no freio dos investimentos e o olho nas perdas deixadas pela atual safra de grãos, o setor mais dinâmico da economia brasileira nos últimos anos, o agronegócio, atravessa um momento de tensão e ansiedade. Ao descontrole conjuntural provocado pelo desastre climático nos Estados do Sul, além de regiões de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e São Paulo, somou-se a redução da taxa média de câmbio e a elevação de 30% nos custos de produção. Além disso, a gangorra dos preços internacionais das commodities abalou a confiança dos produtores rurais. A nova equação do setor, segundo analistas, governo e produtores, deve significar um passo atrás no acelerado processo de avanço das últimas quatro safras. "Mas pisar no freio e arrumar a casa não deve ser vergonha para ninguém", pondera o maior produtor individual de soja do mundo, Blairo Maggi, governador de Mato Grosso, durante a feira tecnológica Agrishow Cerrado, em Rondonópolis (MT). As dívidas deixadas pela nova situação podem provocar redução da área plantada, queda na produtividade média e uma baixa rentabilidade das lavouras na safra 2005/2006 - que começa em julho e vai até junho de 2006. As renegociações de dívidas do crédito rural e os débitos com o setor privado pressionam os horizontes do setor, segundo o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. "Esse é o principal nó a ser desatado para haver uma ponte entre a atual e a próxima safra", afirma. O ministro diz que persistem "graves problemas" de excesso de oferta e altos estoques mundiais de soja, algodão, milho, trigo e arroz. Mas há um cenário "favorável" de preços externos e firme demanda para café, cana e laranja até 2006. "Preocupam os sinais de redução do padrão tecnológico das lavouras." No mercado, os analistas vêem o processo de renegociação das dívidas como ameaça à dinâmica do crédito ao setor. "As quebras de contratos 'soja verde' foram um tiro no pé e reduziram em US$ 1 bilhão o volume de recursos disponíveis", lembra o economista Glauco Carvalho, da consultoria MB Associados. Os bancos também desconfiam. "O endividamento reduzirá a capacidade de contratação de novos recursos", prevê Ademiro Vian, diretor da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Diante de um cenário de crédito seletivo nas "tradings" e em fornecedores de insumos, além de limites estourados nos bancos e pouca disposição do mercado para o risco, o recente tombo de parte do setor pode elevar o nível da inadimplência - hoje, o Banco do Brasil, maior financiador do setor, estima a marca de apenas 0,57%. "Os produtores têm patrimônio, mas carecem de liquidez", resume Fernando Muraro, analista da consultoria AgRural. A alta alavancagem do setor, traduzida sobretudo pela aquisição recente de máquinas e equipamentos agrícolas, pode ter um efeito perverso: a saída de muitos produtores da atividade. O movimento embute uma conseqüente concentração de terras. "Pelo menos 400 mil hectares devem trocar de mãos", diz Muraro. Ao mesmo tempo, as cotações das principais commodities agrícolas devem se estabilizar. A menos que seja registrado um desastre climático na Argentina ou nos Estados Unidos. "O mercado externo tem excessos e a soja, por exemplo, deve oscilar entre US$ 5,50 e US$ 6,50 por bushel (unidade de volume internacional) até maio de 2006", avalia Muraro. As margens de lucro, que chegaram a 70% na soja em duas ótimas safras, caíram bruscamente. Em parte pela forte elevação nos custos, mas também pela quebra da safra. Estima-se que o combate à ferrugem asiática da soja tenha consumido, por exemplo, seis a sete sacas de cada produtor. Os custos subiram junto com a alta do petróleo e não caíram. "Esse era o lucro que evaporou", argumenta Adilton Sachetti, dono de 12 mil hectares de soja e algodão em Sapezal e Itiquira (MT). A margem de lucro será muito apertada. Se o preço médio histórico ficar em US$ 9 por saca, base Sorriso (MT), a margem do produtor fica negativa. "Só se salva quem tiver produtividade recorde", diz Muraro. E isso é algo cada vez mais difícil em virtude dos custos e da ferrugem. "Mas essa alta de custos, puxada pelo petróleo, aconteceu no mundo todo", diz Amaryllis Romano, da consultoria Tendências. A quebra da safra foi forte. Da estimativa inicial da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) até agora, a redução já chegou a 12,4 milhões de toneladas. E as perdas podem ser ainda mais severas, perto de 16 milhões de toneladas, estima o governo. A crise deste ano golpeou forte a produção de bens de capital agrícolas, que caiu 28% no primeiro trimestre do ano. "É um momento complicado", admite Normélio Ravanello, diretor da AGCO-Massey. "E melhora só em três ou quatro anos". A empresa, que operava no limite em 2004, adiou planos para construir uma fábrica em Rondonópolis. "Agora não há razão para expansão." A receita das lavouras de grãos, estimada pela MB Associados, deve cair. Em dólares - por causa dos custos serem balizados por essa moeda, como fertilizantes e defensivos -, uma queda de US$ 24,4 bilhões, em 2004, para US$ 21,9 bilhões neste ano. Em reais, a perda de receita será puxada pela taxa de câmbio - de R$ 71,3 bilhões para R$ 59,5 bilhões. A MS Consult calcula uma queda de R$ 119,9 bilhões para R$ 117 bilhões na receita de todas as lavouras - inclusive café, cana-de-açúcar, laranja e fumo. Os bons preços externos dessas quatro commodities devem, porém, elevar a receita em dólares, segundo a MS - de US$ 41 bilhões para US$ 42,2 bilhões. Devem brilhar a cana (mais US$ 1 bilhão), o café (mais US$ 800 milhões) e o milho (mais US$ 400 milhões). "Depois de quatro anos ganhando dinheiro, um ano ruim não será um desastre", diz Amaryllis Romano. Ela diz que "o pior já passou" porque os custos já subiram. "Cresceremos menos, mas de forma sustentada e segura". O analista Fábio Silveira, da consultoria MS Consult, concorda: "O cenário não é sombrio, mas está longe de ser animador porque o custo de fertilizantes continuará a subir", diz. Ele aposta num "adicional de estímulo" do governo por causa da proximidade das eleições de 2006. "O setor não entrará em colapso, ganhou escala e subiu um degrau." Nesse período, o setor deixou de esperar apenas pelo financiamento oficial. De 1980 a 2004, a safra cresceu 129% e o crédito oficial recuou 54%. "Houve um amadurecimento com instrumentos privados do tipo venda antecipada e contratos de futuros", diz o secretário de Política Agrícola, Ivan Wedekin. "Mas ainda falta reduzir a exposição ao risco".