Título: Negociações continuarão mesmo com campanha do país à OMC, diz Amorim
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 14/10/2004, Brasil, p. A-3
O lançamento de uma candidatura brasileira para a diretoria-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) é uma situação "incômoda" para a diplomacia do Brasil, mas não provocará a paralisação das negociações da nova rodada de liberalização comercial, argumentou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, ao comentar ontem a decisão de lançar para o principal posto na OMC o embaixador do Brasil em Genebra, Luis Felipe de Seixas Corrêa. Ele anunciou, também, que enviará um diplomata de Brasília para desempenhar parte das funções de Seixas Corrêa, que, segundo o ministro, terá de dedicar-se à campanha pelo cargo. "O embaixador Seixas Corrêa vai ter que fazer muitas viagens, vai se dedicar mais a sua própria candidatura; mandaremos alguém da capital (para Genebra)", anunciou Amorim, ao minimizar as resistências que podem se levantar à candidatura de Seixas Corrêa devido à participação ativa da diplomacia brasileira em defesa de interesses dos países em desenvolvimento. Amorim criticou severamente o candidato apresentado pelo Uruguai, também embaixador em Genebra, Carlos Peres del Castilho, que, no ano passado, como presidente do Conselho-Geral da OMC (o órgão que reúne os representantes dos países), preparou o documento que deveria servir de base para a fracassada conferência ministerial da organização, no fim do ano, em Cancún, no México. "O candidato uruguaio foi o presidente do Conselho que preparou o documento e não só não deu resultado em Cancún, como desgostou muito, muito alguns países em desenvolvimento; não foi pouco não", avaliou. Sondagens feitas em Genebra pelos brasileiros mostraram que muitos países em desenvolvimento, além do Brasil, descontentes com a atuação de Peres del Castilho, não votariam no uruguaio, garantiu Amorim. "Conheço candidaturas nessas organizações a fundo, o diabo é esperto não por ser diabo, mas porque é velho, como meu caso", comentou o ministro. "A candidatura Peres de Castilho não teria chance." O ministro defendeu Peres del Castilho como "um homem íntegro, honesto". Segundo Amorim, o Brasil teria preferido indicar um nome como o do ministro das Relações Exteriores da África do Sul, Alec Erwin, que, no entanto, não quis disputar. "Temos de levar adiante as negociações da OMC com base no que acordamos em Genebra, e, para isso é preciso não só uma personalidade forte, mas uma que seja percebida como forte" insistiu. O país apoiaria um candidato sul-africano, argentino, ou até uruguaio que mostrasse essas características. O ministro das Relações Exteriores reconheceu que o candidato do Uruguai já colheu manifestações de apoio, "até porque (o Uruguai) é um país simpático, e ele próprio é uma personalidade interessante". O Brasil, porém, também tem indicações de forte apoio entre outros países da OMC, e só após dezembro haverá lançamento oficial de candidaturas e manifestações abertas de apoio a uma ou outra candidatura, argumentou. Para Amorim, a candidatura de Seixas deve ganhar força pelo reconhecimento da atuação do Brasil, na criação do G-20, grupo de países em desenvolvimento formado contra posições dos países ricos em matéria de agricultura na conferência de Cancún, e, mais recentemente, nas negociações em Genebra que levaram a um acordo para dar continuidade às negociações da chamada rodada de Doha. "Conduzimos as coisas construtivamente por uma solução; não jogamos na linha da confrontação", lembrou o ministro. "Fomos firmes quando tínhamos de ser firmes, para não deixar um acordo contra nossos interesses; mas em momento algum fomos contra a negociação, propusemos fórmula para negociar."