Título: Indústria deve se preparar para os chineses
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 03/05/2005, Especial, p. A8

O governo negociará "politicamente" com a China maneiras de minimizar o impacto, sobre a indústria brasileira, da entrada dos produtos chineses no país, mas os empresários devem se preparar para a concorrência, em vez de "ficar chorando", disse ao Valor o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após discursar para dezenas de empresários, durante as comemorações do aniversário de cinco anos do jornal. "Se a gente conhece o potencial de produção dos chineses, eles vêm forte, e nós, em vez de ficarmos chorando, temos de nos preparar", disse Lula, em um discurso de improviso. No final, após defender prioridades do governo, como o biodiesel, foi aplaudido de pé pelo público, no auditório da Fiesp. "Vamos procurar novos mercados; porque, de repente, eu vejo gente querendo que o (ministro da Fazenda, Antonio) Palocci determine o valor do dólar", disse o presidente. Ele comemorou os dados recém-informados, por telefone, pelo ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, segundo os quais as exportações brasileiras já somam US$ 104 bilhões no período de 12 meses, e o saldo do comércio exterior supera US$ 37 bilhões. Lula levou, para as comemorações do aniversário do Valor, seis ministros: Antonio Palocci, da Fazenda, José Dirceu, da Casa Civil, Dilma Rousseff, das Minas e Energia, Eunício de Oliveira, das Comunicações, Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, e Roberto Rodrigues, da Agricultura, além do presidente do BNDES, Guido Mantega. O presidente do Senado, Renan Calheiros, também participou da cerimônia, ao lado do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, o presidente do grupo Folha/UOL, Luís Frias, e o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, que falaram sobre o jornal para uma platéia de cerca de 500 empresários e executivos de instituições financeiras. A menção, por Frias e Marinho, do nome do primeiro diretor de redação do Valor, Celso Pinto, afastado por motivo de doença, provocou aplausos dos presentes. Após os discursos em que o ministro Palocci fez um balanço dos resultados e prioridades do governo em matéria de política econômica, e o ministro José Dirceu, falou da estratégia para os próximos anos, Lula enfatizou a prioridade concedida às obras da Transnordestina e da ferrovia Norte-Sul, e afirmou que vai "jogar pesado" para evitar que a Previdência se transforme em "bolsão de prejuízo". O presidente repetiu o compromisso de manter o aperto nas contas orçamentárias. "O Brasil não pode jogar fora essa chance; temos de sair do patamar de economia emergente." Lula sugeriu que se comparassem as notícias publicadas há cinco anos nas primeiras edições do Valor com as atuais, para se verificar os avanços na situação macroeconômica do país. Sem citar nomes, criticou seus antecessores José Sarney e Fernando Henrique Cardoso que, por causa de eleições, teriam adiado ajustes necessários no Plano Cruzado e na cotação do câmbio durante o Plano Real. "As coisas estão mudando de forma definitiva", disse, assegurando que seu governo não modificará a política econômica por causa das eleições. "Não se pode brincar com economia", recitou. O governo aumentou juros a 15 dias das eleições para a Prefeitura de São Paulo, lembrou. "Normalmente, os governos esticam a corda até passar a eleição e ela estoura nos mais pobres." Lula dedicou boa parte do discurso a falar de política externa. Ele citou o aumento de 48% no comércio com a África, de 64% com o Oriente Médio e de 50% com a América do Sul para defender a decisão de explorar novos mercados para as exportações brasileiras. O presidente afirmou que a União Européia tende a dar prioridade para os 15 novos sócios egressos do Leste Europeu e aproveitou para tentar desfazer as impressões causadas por suas declarações anteriores, de que seu governo "tirou de pauta" as discussões sobre a Alca. "Tiramos a carga ideológica muito grande que estava na Alca", argumentou. "Se era a favor, era subserviente, se, até a partir de posições da Fiesp, não concordava com a Alca como estava, era xiita, antiimperialista." O Brasil não quer "afrontar" os EUA, disse, apenas lidar com o país em pé de igualdade. Bem-humorado, despertou risos ao lembrar que passou "parte da vida gritando" contra o Fundo Monetário Internacional (FMI). "Saímos pela porta da frente, sem gritaria", disse Lula, e lembrou que participou das eleições para a direção do FMI. "Veja que evolução", ironizou. O discurso contra o levantamento de barreiras para produtos chineses foi, porém, o que mais impressionou os empresários - alguns chegaram a comentar, sarcásticos, que Lula teria estimulado as importações da China. A maior abertura para a China é conseqüência da decisão, tomada na rodada Uruguai da OMC, há 11 anos, de extinguir, em 2005, as cotas para produtos têxteis, lembrou Lula. "Com os chineses não temos problemas, essa é minha opinião", disse, após o discurso, para o Valor. "A China é parceiro importante, temos condição de conversar com eles, fazer ajustes que têm de ser feitos", afirmou. "Já briguei muito na vida, hoje sou mais chegado a um bom acordo que a uma demanda". Skaf, que assistiu à conversa com o Valor, disse que procurará o presidente para explicar que a competição chinesa é desleal por embutir sobredesvalorização do câmbio de 30%. "E eles pirateiam produtos", comentou, irritado.