Título: Obras de economia e negócio crescem e aparecem na Bienal
Autor: Luiz Monteiro
Fonte: Valor Econômico, 05/05/2005, EU &, p. D6

O segmento de livros de economia e negócios vem conquistando espaço privilegiado na estante dos brasileiros. Obras do gênero se multiplicam a um ritmo duas vezes mais rápido do que o mercado editorial como um todo. As obras especializados no setor cresceram 5% de 2002 para 2003, enquanto o mercado editorial aumentou apenas 2%, de acordo com pesquisa da Câmara Brasileira do Livro (CBL). Estima-se que em 2004 o vigor tenha se mantido, com a ampliação de cerca de 5% da participação desses livros no total do mercado, em relação ao ano anterior. Para atender à demanda de informações sobre esse segmento do mercado editorial, o Valor passa a publicar uma seção dedicada a livros de economia e negócios, às quintas-feiras, no caderno "D". Essa tendência para o crescimento também pode ser verificada na XII Bienal do Livro do Rio, a partir de quinta-feira, dia 12. No Riocentro, a nata das editoras de livros de negócios e economia, como Campus/Elsevier, Siciliano, Saraiva e Gente, além de respeitadas editoras não especializadas, terão destaque entre os mil expositores da feira. Muitos trazem um formato bem-sucedido: séries de dez ou mais livros que nasceram a partir de um êxito inicial, com as primeiras edições atingindo a marca de 50 mil exemplares. O comum são tiragens de apenas três mil. "O setor está crescendo e editoras que se destacam na ficção estão lançando livros nessa área", diz Paulo Rocco, presidente do Sindicato Nacional dos Editores (Snel) e proprietário da Rocco. Em meio a essas iniciativas, a Bienal decidiu até abrigar um estande da Bolsa de Valores de São Paulo, para divulgação do mercado de capitais. Mas nem só de best-sellers de negócios vive o setor. Livros de macro e microeconomia agregam prestígio ao catálogo das editoras, embora não precisem disputar espaço nas listas de mais vendidos. Títulos como "História do Pensamento Econômico", de E.K. Hunt, "Prometeu Desacorrentado", clássico de David S. Landes (Campus), ou "Brasil em Desenvolvimento", da Record, com artigos de vários autores, em dois volumes, com introdução de Celso Furtado e Alain Touraine, não são de apelo comercial, mas encontram público fiel nos círculos intelectuais. O setor tem outra característica peculiar. Clássicos mantêm-se vivos, com vendas expressivas, embora não freqüentem listas. "São como relógio suíço: vendem todo ano a mesma quantidade, razoável e permanente", diz Paul Christoph, diretor editorial da Campus/Elsevier. Sua editora não tira do catálogo livros como "Introdução à Economia", de Rudiger Dornbusch, Stanley Fisher e David Begg. Editoras já conhecidas por lançar obras de ficção e ensaios, como Rocco, Record e Martins Fontes, fazem questão de marcar presença no nicho econômico na Bienal. A Rocco lança "Arremessando o Elefante", de Stanley Bing, com recomendações para lidar com chefes cruéis. Outro novo título é "Siga - As Tendências que Regerão as Vidas no Futuro", de Ira Matathia e Marian Salzman, descrito como "exercício inteligente de futurologia e tendências". A Record, que possui no catálogo clássicos de autores como Dale Carnegie e Og Mandino, lança "O Poder do Foco", do campeão de vendas Jack Canfield, e mais um do lendário Carnegie, "Alta Performance em Vendas". Já a Martins Fontes vem com "Chega de Oba-oba!", de Judith Mair, que propõe a volta à disciplina na empresa. Por essa amostra de títulos percebe-se que, com exceção de um Jack Welsh, ex-CEO da General Electric (seu "Paixão Por Vencer", da Campus, continua best-seller), o bom humor e as teses inovadoras ganham dos "nomões". Um exemplo é o sucesso de "O Monge e o Executivo", de James C. Hunter (Sextante), fábula que defende a idéia de que liderar é servir. Ou "Metanóia", de Roberto Tranjan (Gente), que sugere ao líder substituir o ciclo da sobrevivência pelo da prosperidade, para alcançar mais qualidade de vida e para unir ambição com eficácia empresarial. Tranjan, formado em administração de empresas e dono da TCA Consultoria, diz que é "mais educador que consultor". Antes, "esbarrava num limite ao tentar melhorar as organizações". Notou, então, que só conseguiria ultrapassá-lo "mudando a cabeça de líderes". O livro é um instrumento dessa opção, nascida também da constatação de que uma característica do líder brasileiro é o autoritarismo doce e, como conseqüência, um "ambiente manipulado", no qual nem a equipe, nem o líder conversam abertamente. "Estamos vivendo uma expansão dos livros 'business light', que unem desenvolvimento pessoal aos negócios", diz Christoph, da Campus/Elsevier, que lança cerca de 60 títulos de negócios por ano, como o sucesso "Pai Rico, Pai Pobre", de Robert T. Kiyosaki e Sharon L. Lechter. O livro vendeu 600 mil exemplares em cinco anos e desdobrou-se numa série de dez obras, que somam 950 mil exemplares. Exemplo de best-seller de autores que abandonam a pose de "sabe-tudo empresarial" é "Abílio Diniz - Caminhos e Escolhas" (Campus/Elsevier), que vendeu 150 mil cópias em um ano. "Abílio é um empresário bem-sucedido, mas não um escritor profissional. Trabalha das 8 às 8, faz ginástica de manhã, à tarde e à noite e ainda escreve livro de sucesso...", observa Christoph. Para o editor, o modo de vida de Diniz revela que não há fórmulas fáceis para ser líder e isso está no livro, que apenas conta a trajetória do empresário e seu dia-a-dia. "Abílio dá tanta importância à liderança nos supermercados quanto à resolução de uma crise familiar ou ao esporte. É a imagem do novo líder", afirma Christoph. Se o livro fosse uma ficção, só perderia para o fenômeno Dan Brown, de "O Código Da Vinci" (Sextante), avalia Christoph. Estaria na frente de nomes consagrados da literatura ficcional, como José Saramago, Chico Buarque, Sidney Sheldon, Arnaldo Jabor e Luiz Fernando Verissimo. Está aí um indício de que até os escaninhos das listas de mais vendidos têm sido embaralhados diante da veloz expansão do novo mercado. Com uma história que remete a 1936, quando Dale Carmegie lançou "Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas", os best-sellers de negócios vivem hoje outro momento de ascensão, depois de certa queda entre 1995 e 2001. Nos anos 80, o mercado de livros de negócios era determinado pelos gurus, como Lee Iacocca, da Chrysler, ou Donald Trump. O fenômeno transplantou-se para o Brasil pelas mãos da editora Rocco, com "Virando a Própria Mesa", do empresário Ricardo Semler, best-seller de 1988. Foi um marco, que levou a editora, antes dedicada a títulos de auto-ajuda, a lançar outros livros de negócios. No Riocentro (av. Salvador Allende, 6.555, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, tel.: 0XX21/2442-1300). A partir de quinta-feira, dia 12.