Título: Furlan prevê comércio de US$ 15 bilhões em três anos
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 10/05/2005, Brasil, p. A4

O ritmo de aumento do comércio com os países árabes permitirá elevar as importações e exportações do Brasil com os 22 países da Liga Árabe, dos atuais US$ 8 bilhões, para US$ 15 bilhões, em três anos. A afirmação foi feita ontem pelo ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, ao abrir o encontro empresarial paralelo à reunião de cúpula entre a América do Sul e os Países Árabes. O interesse no aumento do comércio entre as duas regiões foi endossado pelo secretário-geral do Conselho de Cooperação do Golfo, Abdul Rahman Bin Hamad, que representou, na abertura do encontro, Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã. "O volume de comércio duplicou nos últimos cinco anos, mas está longe das nossas aspirações; não chega a 1% do comércio de ambas as regiões." A assinatura de um acordo de referência para negociações de livre comércio entre o Mercosul e o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) será um dos principais resultados comerciais da cúpula, apresentada pelo governo brasileiro como um primeiro passo para aproximação entre árabes e sul-americanos. O CCG ambiciona tornar-se uma área de livre comércio, com unificação monetária, até 2007, anunciou Rahman Bin Hamad. Deve ser oficializada também durante a cúpula a decisão da empresa Emirates Airways de estabelecer um vôo diário entre Dubai, capital dos Emirados Árabes Unidos, e São Paulo. "Vamos montar uma grande missão comercial para o vôo de inauguração no fim do ano", anunciou o diretor do departamento Comercial do Itamaraty, Mário Vilalva. Ontem, o Banco do Brasil anunciou a decisão de abrir uma agência em Dubai. O comércio entre a América do Sul e os países árabes cresceu 18% no primeiro quadrimestre do ano, depois de ter crescido 50% entre 2003 e 2004, informou o presidente da Câmara de Comércio Brasil-Árabe, Antônio Sarkis Filho, para quem o Brasil nunca recebeu número "tão representativo" de empresários da região. Sarkis espera convencer as companhias de navegação a criarem linhas de transporte marítimo, de forma a reduzir para 30 dias o tempo de chegada de mercadorias embarcadas para os países árabes do Brasil. Hoje, a demora é de 60 dias. Furlan informou que o Brasil tem interesse em estimular o turismo árabe no Brasil, e fornecer serviços hospitalares, aproveitando hospitais especializados brasileiros para abrigar pessoas que hoje vão de países árabes para centros médicos da Europa e EUA. Segundo Sarkis, um estudo da Câmara Brasil-Árabe mostrou forte potencial de expansão das exportações de commodities já vendidas à região, como açúcar, carnes de frango e bovina, soja, café e minério de ferro. Além disso, os países árabes têm aumentado as compras de tratores, autopeças, máquinas agrícolas, aviões, tubos de aço, calçados e equipamentos hospitalares. O comércio já estimula interesse em investimentos no Brasil, e há consultas de empresários árabes sobre oportunidades em usinas de açúcar e álcool e outros setores do agronegócio, comenta Sarkis. A reunião de cúpula dos 34 países das duas regiões começa oficialmente hoje, com a presença de 17 chefes de Estado ou de governo e dois vice-presidentes. Alguns países importantes, como Arábia Saudita e Jordânia, não enviaram chefes de Estado, mas enviaram membros importantes das famílias reais como representantes. A votação da lei sobre uso do gás natural reteve em La Paz o presidente da Bolívia, Carlos Mesa; a instabilidade política no Equador fez com que o presidente Alfredo Palácio preferisse ficar no país; e o Suriname também não enviou seu presidente, Runaldo Venetiaan, devido às eleições locais. A representação dos governos inclui 60 ministros, 33 deles dos países árabes. As delegações, em Brasília somam 315 pessoas, segundo balanço do Itamaraty, que registrou a inscrição de 1,2 mil participantes para o seminário de empresários. Tanto Furlan quanto a ministra de Relações Exteriores do Paraguai, Leila Rachid, representando o Mercosul, fizeram questão de enfatizar para os empresários a presença de grande população de ascendência árabe no continente sul-americano, e a maior hospitalidade e disposição de fazer negócios nessa parte do mundo com a população originada no Oriente Médio - em uma discreta referência às medidas severas de segurança tomadas nos EUA após os atentados de 11 de setembro, e a crescente aversão a imigrantes por parte da União Européia. Rachid fez questão de mencionar a necessidade de aperfeiçoamentos no Mercosul, que também deverá assinar na próxima reunião presidencial, em julho, acordos comerciais com o Marrocos e com o Egito.