Título: México quer que EUA e Brasil definam Alca
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 16/05/2005, Brasil, p. A5
Preocupado com o impasse no Acordo de Livre Comércio das Américas (Alca), o México deu um ultimato ao Brasil e aos Estados Unidos: ou avançam as negociações, ou é melhor suspender o processo até o fim da Rodada Doha, da Organização Mundial de Comércio (OMC). Esse é o teor de uma carta enviada pelo governo mexicano aos co-presidentes da Alca. "Já se passaram 15 meses sem que haja uma direção de Brasil e Estados Unidos. Os co-presidentes não estão exercendo a liderança necessária para ativar a negociação", afirmou ao Valor a chefe da unidade de coordenação de negociações internacionais da Secretaria da Economia do México, Luz Maria de La Mora. Ela se refere à última reunião ministerial da Alca em Puebla, no México, em setembro de 2003. Segundo a negociadora mexicana, seu país está comprometido em concluir as negociações da Alca, porque busca regras comuns na região que favoreçam exportadores e investidores. O México investiu pouco menos de US$ 25 bilhões no continente com destaque para América Central, Brasil, Peru e Argentina. Luz Maria reclama da falta de notícias fornecidas por Brasil e Estados Unidos aos demais 32 membros da futura Alca. "Infelizmente, não temos nenhuma informação da parte da co-presidência", diz. "As únicas comunicações que recebemos é que eles vão se reunir em algum momento, mas depois se adia a reunião. Não temos uma indicação clara". Na sexta-feira, foi novamente adiada uma reunião entre os co-presidentes da Alca, o americano Peter Allgeier, e o brasileiro Adhemar Bahadian. O encontro estava marcado para a quinta-feira. Depois da reunião entre o chanceler brasileiro, Celso Amorim, e o representante comercial americano, Robert Portman, em Paris, essa é a segunda vez que a reunião de seus auxiliares é adiada. Ainda não há nova data. Segundo Luz Maria, o México enviou a carta aos co-presidentes para "dar opções construtivas e propositivas". A negociadora não confirma, nem nega, que uma das sugestões seja a suspensão das negociações. "Não posso comentar as opções, porque não as tenho. O México está interessado em que a negociação avance e quer saber como pode apoiar a co-presidência", diz. De acordo com fontes ligadas ao processo negociador, a carta mexicana sugere seis soluções para a Alca. A mais otimista propõe acelerar os trabalhos com reuniões dos grupos técnicos e ministeriais, inclusive um encontro no Brasil. O segundo tópico fala da suspensão das negociações até o fim da Rodada Doha. Outros três sugerem a transformação da Alca em algo distinto de um acordo de livre comércio: entidade de capacitação de comércio, mecanismo de solução de controvérsias, órgão gestor dos acordos de livre comércio da região. No último, o país propõe a absorção da secretaria de administração da Alca pela Organização dos Estados Americanos. A secretaria administrativa da Alca tem sede em Puebla e sua despesa é paga parcialmente pelo governo do México. Segundo Luz Maria, o país está preocupado com a falta de utilização da estrutura e com a ociosidade do pessoal. "O México está comprometido com o processo até o fim, mas não pode ter uma secretaria administrativa da Alca eternamente", diz. Na avaliação de Luz Maria, a Alca é uma das iniciativas que poderia ajudar os empresários latino-americanos a se protegerem da competição dos produtos chineses, que estão roubando mercado, principalmente nos Estados Unidos. Ela acredita que o acordo pode reduzir os custos burocráticos, administrativos e a compra de insumos. A negociadora nega que o México tema perder participação no mercado americano com o início da Alca, pois o país já possui vantagens nos EUA como membro do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta). "As vantagens das preferências tarifárias não são eternas e erodem ao longo do tempo. As preferências de México já começaram a erodir quando a China se tornou membro da OMC", explica.