Título: Tensão política provoca alta do juro
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 24/05/2005, Finanças, p. C2

As expectativas de inflação do mercado financeiro, um dos itens observados atentamente pelo Copom do Banco Central em suas decisões mensais sobre juros, pararam de se deteriorar. Após onze semanas em alta consecutiva, a projeção de IPCA para 2005 das cem instituições que alimentam o relatório Focus do BC caiu na semana passada. O fato foi relevante menos pela intensidade da queda - de 6,39% para 6,38% - e mais pela ruptura da deterioração. O BC já informou em suas atas que a Selic não iria parar de subir enquanto o mercado sustentasse previsões crescentemente piores para o IPCA futuro e enquanto o índice presente não cedesse. Também por esse segundo aspecto o BC está autorizado a interromper o aperto monetário. As previsões preliminares são de que o IPCA de junho, refletindo a apreciação cambial e o imposto menor sobre os remédios, recuará para perto de zero, ante a faixa de 0,90% em maio. Apesar disso tudo - e da forte baixa das taxas dos papéis americanos de 10 anos, do declínio do dólar comercial, do sossego do risco Brasil e das altas das Bolsas de Nova York -, os juros, com a exceção do contrato mais curto, subiram no mercado futuro da BM&F. Para a virada do semestre, o CDI foi mantido em 19,77%, mas avançou nos outros contratos. Para a virada do ano, evoluiu de 19,58% para 19,62%. Para a abril e junho do ano que vem a alta foi de 0,05 ponto, com previsões de 19,19% e 18,79%, respectivamente. A única razão da alta foi o posicionamento cauteloso em relação à crise política. A CPI dos Correios pode ser instalada na quarta-feira, véspera do feriadão de Corpus Christi. Os tesoureiros de bancos temem o agravamento da crise entre o Planalto e o Congresso e eventuais surpresas incorporadas à ata da última reunião do Copom, a ser divulgada na sexta-feira. A confusão política é o principal fator a desestimular a presença de capital estrangeiro na Bovespa. Contrariando a tendência de Wall Street, a Bolsa paulista caiu 1,25%, com volume anêmico, de R$ 730 milhões. O saldo de capital externo na Bovespa está negativo em R$ 597 milhões em maio.

Bons sinais da inflação foram ignorados

Com dólar muito baixo, a Bovespa precisa subir muito para remunerar adequadamente o investidor externo se o quadro internacional mudar a ponto de forçar uma disparada do câmbio. Mas não há indícios de que isso possa ocorrer no curto prazo. Na véspera da divulgação da ata da última reunião do Fomc do Federal Reserve (Fed), a tranqüilidade foi completa nos mercados internacionais. Os juros dos treasuries de 10 anos recuaram de 4,12% para 4,07%. Embora os dirigentes do Fed reiterem a intenção de continuar apertando o juro, parte do mercado ainda insiste na análise de que é possível a manutenção da taxa em 3% na próxima reunião, no dia 30 de junho. A tensão política não impede o afundamento do dólar. Por enquanto, os bancos ainda persistem assumindo posições vendidas e desovando no mercado a oferta dos exportadores. A moeda americana sofreu ontem sua quarta queda em seqüência. Caiu 0,57%, para R$ 2,4270, menor cotação desde 6 de maio de 2002. A violenta apreciação cambial ainda não produziu impacto negativo vigoroso sobre as exportações. Não há alternativa aos exportadores, diante da queda no consumo interno. Resta compensar o câmbio apreciado por meio do juro alto. Se as exportações persistem em ritmo bom, o dólar baixo agrada aos importadores. Segundo a consultoria GRC Visão, enquanto a média diária das exportações está, até a terceira semana de maio, em US$ 456,7 milhões, contra US$ 378,1 milhões em maio de 2004, alta de 20,8%, a média das importações evoluiu a US$ 301,0 milhões contra US$ 230,0 milhões no ano passado, incremento de 30,9%.