Título: Grotão é encarnado e metrópole é azul
Autor: Maria Cristina Fernandes
Fonte: Valor Econômico, 27/05/2005, Política, p. A6
O PT quer realocar os recursos dos programas sociais para os rincões mais pobres do país e o PSDB vai investir todas as suas fichas nas regiões metropolitanas. A intenção dos petistas está expressa no programa apresentado pelo Campo Majoritário, corrente que congrega os governistas, à eleição pela renovação da direção partidária. A disposição tucana foi reiterada pelas mais recentes pesquisas encomendadas pelo partido demonstrando que, se o PSDB tem chances em 2006, estas dependem de sua capacidade de mobilizar a população das regiões metropolitanas. Os petistas no poder patrocinam, assim, a repetição do filme que, desde a retomada das eleições diretas, move as sucessões presidenciais no país: o governo aposta suas fichas no grotão e a oposição, nas cidades maiores. O ineditismo fica por conta da troca de papéis entre tucanos e petistas. Partido de origens urbanas e enraizado a partir do centro-sul do país, o PT parte para 2006 em busca de estrear sua hegemonia no grotão. Já o PSDB, que disputou as duas últimas eleições presidenciais de mãos dadas com a máquina do PFL e do PMDB no interior do país, passa a depender da rebeldia das metrópoles. Há armadilhas em ambas as opções. Não bastassem as denúncias recorrentes de remediados cadastrados como beneficiários dos programas sociais, a derrota da ex-prefeita Marta Suplicy já seria prova suficiente de que os benefícios à raia miúda não são garantia de reeleição. Por outro lado, o PSDB está no governo de regiões metropolitanas importantes, o que, se lhes garante visibilidade, também os expõe a riscos. As últimas 48 horas em São Paulo ofereceram um exemplo desses riscos. Na quarta-feira, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, colheu boas notícias até o meio-dia. Anunciou, com ampla cobertura da imprensa, um novo sistema de gerenciamento que tende a dar mais visibilidade a 46 iniciativas de sua gestão que já estão em curso. No outro lado da cidade, seu secretário de segurança comemorava pesquisa da Unesco demonstrando que, apesar do aumento de 50% da violência nos dez anos de gestão tucana no Estado, o número de homicídios cai desde que Alckmin assumiu o governo. Depois do meio-dia, o tempo fechou. Choveu durante 15 horas e a cidade submergiu. Os jornais estamparam a marginal do rio Tietê inundada onde sobressaía uma placa publicitária do governo Alckmin sobre as obras de rebaixamento da calha do rio, estimadas em R$ 700 milhões - "Três anos sem enchentes". No dia seguinte, Alckmin e o prefeito José Serra divergiriam publicamente sobre as causas da enchente e as responsabilidades de cada um como se não estivessem abrigados sob a mesma legenda.
Unidade tucana não resiste a uma chuva
As perspectivas crescentes de derrota do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não parecem ser suficientes para amalgamar a união do partido. Até novembro, quando a candidatura do PSDB terá nome e sobrenome, os tucanos esperam ser capazes de responder às dúvidas se esta será uma eleição comandada pelo bolso ou por valores. O maior risco da crise trazida pelos achaques nos Correios é o de que o clima de descrédito contamine o quarto andar do Palácio do Planalto. Essa contaminação abriria uma janela de oportunidades ao PSDB que hoje ainda tem na imponderável deterioração da economia sua única chance de voltar ao poder. Além da mobilização da opinião pública, o foco nas regiões metropolitanas explica-se ainda porque é nelas que o abre-alas da campanha governista à reeleição - crédito consignado, bancarização, bolsa-família e Prouni - mais se diluem em meio às dificuldades inerentes às grandes cidades, como o desemprego e a violência. Os tucanos já estão de olho, por exemplo, nas primeiras ações movidas por aposentados contra o crédito consignado. Dispõem de pesquisas indicando que, no caso dos aposentados, por exemplo, só caberia um comprometimento de até 10% da renda. Como o limite de crédito chega a 30%, em breve os aposentados que se endividaram para ajudar filhos e netos podem ficar sem dinheiro para comprar seus remédios. Já sonham até com um filmete de campanha - o candidato que prometeu dar dignidade ao aposentado terminou o governo deixando-o atolado em dívidas. Mas a construção do discurso não deve ser o principal problema do PSDB. Abundam luminares à sua elaboração. Problema maior parece ser o da unidade, que, pelo visto em São Paulo, não resiste a uma chuva.