Título: Manifestações mobilizam 12 Estados
Autor: Mauro Zanatta
Fonte: Valor Econômico, 01/06/2005, Agronegócios, p. B12

Preços internacionais baixos e custos elevados no plantio e câmbio desfavorável às exportações na colheita, com forte quebra da produção na região Sul no meio do caminho. Depois de três safras extremamente rentáveis, com oferta crescente e sucessivos recordes nas vendas ao exterior, os produtores brasileiros de grãos acusaram a mudança dos ventos neste ciclo 2004/05, e há meses buscam - com sucesso parcial - socorro do governo federal e renegociação de dívidas. Ontem, em uma tentativa de sensibilizar a opinião pública para suas demandas, houve manifestações de produtores nos Estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Tocantins, Triângulo Mineiro, oeste da Bahia, Piauí, Maranhão e nordeste do Pará - regiões normalmente dominadas por médios e grandes produtores, inseridos na cadeia do chamado "agronegócio". "O agricultor que está pedindo refinanciamento é o mesmo que gerou US$ 34 bilhões na balança comercial", disse Antônio Ernesto de Salvo, presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em comunicado divulgado na noite de ontem. Em sua análise, De Salvo lembrou que a "crise" está concentrada na área de grãos, e que culturas como o café e a cana-de-açúcar passam por boa fase, amparada por cotações em patamares elevados no mercado internacional. Nos protestos realizados ontem, com diversas estradas bloqueadas por milhares de manifestantes, a bancada ruralista no Congresso também se fez presente, externando apoio às demandas apresentadas. Ronaldo Caiado (PFL-GO), presidente da Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, adiantou inclusive que o movimento poderá se repetir em junho em Brasília, caso o governo do presidente Lula não atenda às reivindicações do setor. Brasília também está no caminho de Carlos Sperotto, presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). Em Porto Alegre, a marcha de protesto reuniu 10 mil pessoas, 350 tratores, 250 caminhões e 110 ônibus. Foi uma das manifestações de maior envergadura. Também houve apoio das agroindústrias, dependentes dos produtores agropecuários para operar e, portanto, sensíveis a seus pedidos. De acordo com Marco Antio Lorga, presidente do Sindicato das Indústrias de Alimentação do Mato Grosso e diretor da Federação das Indústrias do Estado, "o país peca pela falta de política de proteção aos produtos agrícolas". No Mato Grosso, as manifestações foram lideradas pelo próprio governador Blairo Maggi, cujo grupo de sua família é o maior produtor individual de soja do mundo. A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) enviou mensagens para representantes da bancada ruralista da Câmara e para o Ministério da Agricultura em solidariedade aos produtores "com terras". Newton de Mello, presidente da entidade, disse que o segmento agrícola é o único das 25 áreas cobertas pelos fabricantes de máquinas a apresentar queda de resultados neste ano, com a redução de 21% no volume de vendas e demissão de pelo menos 3 mil trabalhadores. "O que ocorre na agricultura vai se refletir nas áreas de metais, plásticos, cerâmica, tecidos e outros que dependem em grande parte do desempenho da agricultura", afirmou. Economistas observam, contudo, que, além da conjuntura adversa para os grãos, os aumentos dos preços de máquinas nos últimos meses também colaborou para a queda das vendas. As indústrias culpam a alta das matérias-primas pelos reajustes. No fim do dia, um sinal de que o protesto "quase nacional" de ontem surtiu efeito em Brasília. O Ministério da Fazenda, normalmente arredio à renegociação de dívidas e resistente à liberação de crédito, confirmou a liberação de uma linha de R$ 250 milhões, com recursos do Tesouro Nacional, para a comercialização de arroz e algodão, dois produtos que enfrentam conjuntura adversa. (Colaboraram Fernando Lopes, de São Paulo, e MZ)