Título: Maio mantém ritmo e projeções caem
Autor: Chico Santos
Fonte: Valor Econômico, 08/06/2005, Brasil, p. A2

Depois do resultado pouco animador da produção industrial em abril, a expectativa para maio também não é das melhores. Economistas e empresários acreditam que a indústria teve um desempenho modesto no mês passado, também próximo à estabilidade. É o que sugere um indicador antecedente importante, como a produção de veículos divulgada pela Anfavea, que em maio cresceu apenas 0,2% em relação a abril, na série livre de influências sazonais. Além disso, setores importantes, como aço e papelão ondulado, tiveram fraco desempenho, segundo empresários. Os despachos de aço pelas usinas caíram cerca de 8% em relação a abril, segundo Carlos Loureiro, da Rio Negro. Guilherme Maia, da Tendências Consultoria, acredita que o número de maio "vai ser fraco", embora evite fazer estimativa mais exata, porque ainda não foram divulgados indicadores antecedentes, à exceção dos números da Anfavea. Para ele, o fato de que em abril as horas trabalhadas na indústria subiram 3,48% sobre março, acima da alta de apenas 0,13% das vendas reais, indicam formação de estoques, já que o descompasso sinaliza que as empresas podem ter dimensionado mal a demanda. Isso aponta para uma produção pouco significativa em maio. Os empresários traçam um quadro pouco inspirador quando relatam o que ocorreu em maio. No setor de aço maio deve ser pior do que abril no que se refere ao consumo direto, diz Loureiro, da Rio Negro. Ele acredita que as usinas entregaram cerca de 760 mil toneladas de aço plano no mês passado, ou 8% a menos do que as 821 mil toneladas despachadas em abril, quando o despacho já tinha caído 13,2% sobre março. A queda na compra de aço é forte especialmente na indústria de máquinas agrícolas e na construção civil. "O único setor ainda está aquecido é a indústria automobilística". O setor de máquinas e equipamentos também não mostra um desempenho dos melhores, como diz Newton de Mello, presidente da Abimaq, entidade que representa o segmento. Em abril, houve queda de 4% na produção em relação a março, de acordo com o IBGE. Segundo Mello, conversas com empresários indicam desempenho fraco em maio. O setor sofre com a combinação de juro alto, câmbio valorizado e elevado preço do aço, afirma ele. Nos primeiros quatro meses do ano, o faturamento cresceu 9,6% em relação ao mesmo período de 2004, mas, para Mello, a tendência é de que esse números não se sustentem ao longo do ano. Ele nota que o desempenho dos diversos subsetores foi muito desigual. O de máquinas agrícolas teve queda de 21%, no período, enquanto o de máquinas pesadas cresceu 171%. Depois da alta de 35% do faturamento no ano passado, ele teme que haja queda em 2005. Guilherme Duque Estrada, presidente da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), conta que em meados de maio os relatos de empresários do setor não eram nada otimistas. Ainda assim, Estrada não arrisca previsão para o resultado do mês. "Há indicação de que a demanda interna caiu neste começo de ano, pois a produção subiu em ritmo mais acelerado do que o das vendas internas." Ele acredita que as exportações absorveram a produção que não foi para o mercado interno. Roberto Nicolau Jeha, da indústria São Roberto, diz que a expedição de papelão ondulado em maio ficou estável em relação a abril. "A economia está patinando", afirma ele, culpando os juros altos e o dólar barato pelo perda de fôlego, citando ainda o problema estrutural da elevada carga tributária. "No começo do ano, eu esperava um crescimento de 8% a 10% na expedição de papelão ondulado neste ano, mas já será uma vitória se a expansão for de 6%." Análise da LCA Consultores, porém, vê um quadro um pouco melhor, a partir do bom desempenho do setor de bens intermediários em março e abril. Segundo a LCA, esse comportamento pode "refletir aumento das encomendas dos setores produtores de bens finais, o que sinalizaria aceleração de sua produção nos próximos meses." A Associação Brasileira de Embalagens (Abre) divulgou ontem o resultado da produção de abril, que cresceu 6,45% em relação ao mesmo mês de 2004. O presidente da Abre, Fábio Mestriner, lembra que a base de comparação é fraca, mas diz que o crescimento é razoável, principalmente nos segmentos de vidro e plástico. Ele esperava expansão de 3,5% a 4% no ano, mas, como o setor cresce abaixo do esperado, está mais para 3,5%. A avaliação da Abit, que representa o setor têxtil, é de estagnação do mercado interno. "A produção está andando de lado", afirma Fernando Pimentel, diretor superintendente da entidade. O clima também não está ajudando. "Tivemos apenas dez ou 12 dias de frio, ainda não foi suficiente para motivar um ciclo intenso de compras." Pimentel ressalta que as exportações têm sofrido com a valorização do câmbio e a concorrência chinesa. No primeiro quadrimestre, as vendas externas subiram 10%, abaixo dos 26% do mesmo período de 2004. Com esse cenário, a previsão inicial da Abit de crescimento entre 5% e 6% na produção de têxteis foi por água abaixo. Para o diretor, "mantidas as condições atuais de juros e câmbio, o resultado será aquém do projetado".