Título: Bens de capital voltam a ter queda
Autor: Chico Santos
Fonte: Valor Econômico, 08/06/2005, Brasil, p. A2

A pior notícia sobre a produção industrial de abril está mais uma vez ligada ao rumo da taxa de investimento da economia brasileira, indicador unanimemente considerado decisivo para o futuro do crescimento econômico. Os bens de capital (máquinas e equipamentos, basicamente) tiveram queda de 2,9% de março para abril, revertendo o ensaio de recuperação apresentado em março sobre fevereiro (3,9%), já livre de influências sazonais. Em janeiro e fevereiro a produção de bens de capital já havia caído 1% e 3,3%, respectivamente, na comparação mês a mês. A preocupação com os bens de capital se justifica quando se verifica que os investimentos medidos pelo Produto Interno Bruto (PIB) caíram 3% no primeiro trimestre deste ano em relação ao trimestre anterior, a segunda queda consecutiva nessa forma de comparação. O coordenador de indústria do IBGE vê relação direta do mau desempenho dos bens de capital com a política monetária apertada. "No caso dos investimentos, a política monetária restritiva desde setembro do ano passado pode estar tendo algum efeito nas decisões (dos empresários)", disse. Os dados do IBGE mostram que o mau desempenho dos bens de capital tem como principal razão aqueles produzidos para o setor agrícola, que caíram 37,2% sobre abril do ano passado. Houve crescimento dos bens de capital para a construção (23%), para energia (14,8%) e para a indústria (8,3%), sempre em relação ao mesmo período do ano passado. Segundo a análise de Fernando Montero, da Convenção, o crescimento de 3,3% do setor de bens de capital em relação ao mesmo período do ano passado esconde um problema: quando os dados são cruzados com as exportações líquidas (descontadas as importações), o consumo aparente de máquinas e equipamentos passa para um sinal negativo de 5,1%. Isso, de acordo com Montero, só não é mais grave porque foi contrabalançado por uma recuperação dos insumos para a construção (os investimentos são formados por construção, com 60% de peso, e máquinas e equipamentos, com 40%), especialmente cimento. Para Estêvão Kopschitz, do Ipea, os números negativos do setor de bens de capital apresentam o aspecto "positivo" de estarem concentrados, principalmente, na área agrícola. "Mesmo sem crescerem, os investimentos estão em um patamar razoável e deverão permitir algum crescimento neste ano, embora inferior ao do ano passado", afirmou (o PIB cresceu 4,9% em 2004). (CS)