Título: Dados contraditórios confundem o Copom
Autor: Chico Santos
Fonte: Valor Econômico, 08/06/2005, Brasil, p. A2

Os dados sobre a atividade industrial mantiveram o padrão desfavorável que, em meses passados, vinha causando estranheza para os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Mais uma vez, recuou a produção de bens de consumo semiduráveis e não duráveis. Na visão do BC esse deveria ser o segmento mais dinâmico da economia - puxado pelo emprego e renda. Nos seus recentes documentos oficiais, o BC vem repetindo que a economia deve, cada vez mais, ser puxada pelos fatores de autopropagação - emprego e renda -, e menos pelo estímulo do crédito. "O padrão (de crescimento) observado nos últimos dois meses não parece consistente com o atual ciclo econômico", registrou a ata do Copom de maio. A justificativa apresentada em nota do Copom de setembro de 2004, quando informou que iniciava um ciclo de aperto na política monetária, foi exatamente preservar o crescimento da economia por meio dos mecanismos de autopropagação, que seriam corroídos na hipótese de a inflação se acelerar. Em março, o Copom chegou a apontar a mudança da composição da produção industrial como um fator positivo para a adoção da política monetária. Segundo o relatório de inflação daquele mês, o crescimento estava cada vez mais apoiado em segmentos ligados a emprego e renda, que se encontravam com níveis mais baixos de utilização da capacidade instalada, pois em 2004 tiveram fraco desempenho. Até janeiro, os bens de consumo semiduráveis e não duráveis haviam registrado quatro meses seguidos de expansão. Como perderam vigor desde então, e o segmento de bens duráveis - mais dependente do crédito - manteve relativo dinamismo, a situação se tornou menos favorável. O risco é as mais recentes altas de juros deprimirem o consumo de bens duráveis, sem que a expansão do emprego e renda puxe segmentos que têm mais espaço para crescer. O BC chegou a cogitar, em abril, se os sinais trocados na economia não seriam decorrentes apenas de algumas distorções na estatísticas. Naquele mês, a autoridade monetária assinalou que os dados poderiam estar sendo distorcidos por alguns eventos específicos, como o atraso na colheita e processamento de cana-de-açúcar e a redução na carga processada de petróleo. Também levantou a hipótese de o grande números de feriados móveis no início do ano ter afetado a dessazonalização dos dados.