Título: Brasil deverá renegociar acordo automotivo com Argentina, diz Anfavea
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 09/06/2005, Brasil, p. A4
A pretensão argentina de adiar, para 2008, o livre comércio de produtos automobilísticos com o Brasil exigirá a renegociação de um acordo automotivo entre os dois países, disse o presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Rogélio Golfarb, após o encontro, ontem, com o ministro do desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan. Golfarb foi levar ao ministro o alerta da Anfavea sobre o desempenho positivo da produção e das vendas do setor. "Os números de crescimento não necessariamente refletem uma visão correta do que está acontecendo no setor", avisou Golfarb, que se queixou da compressão nas margens de lucro das montadoras e da redução de investimentos provocada pelos altos juros e baixa cotação do dólar. "Qualquer mudança na data (para o livre comércio com a Argentina) exige reescrever o acordo", disse Golfarb. Furlan relatou ao empresário conversas que manteve com as autoridades argentinas, de quem cobrou medidas para tornar competitiva a indústria local, que se queixa de "assimetrias" na competição com o Brasil. O governo, segundo apurou o Valor, considera inevitável o adiamento da data em que entraria em vigor o livre comércio, 31 de dezembro de 2005; mas não pretende atender ao apelo argentino, divulgado informalmente pela imprensa de Buenos Aires, de simplesmente adiar para 2008 o fim do atual comércio compensado entre os dois países. Hoje, o Brasil só pode vender à Argentina uma quantidade de veículos proporcional à comprada daquele país, regra que seria extinta neste ano. As dificuldades da indústria argentina, que não consegue exportar seus modelos mais caros e vê uma invasão de veículos mais baratos, fazem com que o governo brasileiro avalie ser praticamente impossível os argentinos aceitarem o livre comércio. O temor das autoridades é que, após o fim do atual acordo, os argentinos tentem impor limites arbitrários às exportações àquele país, o que criaria nova crise no Mercosul. A diplomacia deve aproveitar este semestre para renegociar os termos do adiamento, mas o tema ainda não entrou oficialmente na pauta de discussão entre os dois países. Os argentinos se queixam de que o Brasil tem vantagens competitivas, como os carros bicombustível e os populares, de mil cilindradas. Os brasileiros contra-argumentam que nenhuma dessas medidas de apoio foi tomada sem aviso prévio, com bastante antecedência, aos sócios no Mercosul. Golfarb informou que não chegou a discutir o assunto com Furlan, com quem se concentrou em explicar os riscos escondidos por trás dos dados positivos divulgados na terça-feira pela Anfavea. A queda de 30% nas vendas do setor de máquinas agrícolas, por exemplo, é um "problema relevante para a indústria", queixa-se o executivo. Ele repetiu, para Furlan os argumentos levantados pela Anfavea na véspera, de que a compressão das margens de lucro das indústrias levou os investimentos no setor a níveis muito baixos historicamente. Os investimentos foram de US$ 2,2 bilhões, em 1994, quando 210 modelos eram fabricados no Brasil; esse valor caiu para quase US$ 1,4 bilhão, em 2004, com 550 modelos em linha, repetiu Golfarb. "Não só investimos menos em termos absolutos como o valor médio caiu, por modelo", comentou. "É muito abaixo das necessidades da indústria automobilística para se manter competitiva e continuar exportando", diz. A Anfavea apresentou ao governo um estudo com fatores que ameaçam a competitividade da indústria.