Título: Lula diz que "cortará na própria carne"
Autor: Taciana Collet
Fonte: Valor Econômico, 08/06/2005, Política, p. A6
Crise Discurso lido diz que ninguém será "acobertado" e que o "Congresso não está sujeito à compra"
Ao discursar ontem na abertura do IV Fórum Global de Combate à Corrupção, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que vai apurar todas as denúncias de corrupção envolvendo o governo e "cortará na própria carne" se necessário, sem "acobertar" ninguém, seja quem for, e também estimulará o Congresso a investigar. "Tenho uma biografia a preservar, um patrimônio moral, uma história de décadas em defesa da ética na política", ressaltou Lula. Sem citar as acusações do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) de compra de parlamentares envolvendo o PT, em discurso lido, Lula destacou que o "Congresso não pode estar sujeito à compra". "Independente do uso político-eleitoral que alguns estejam fazendo dessas denúncias, gostaria de deixar claro que meu governo levará as investigações até às últimas conseqüências. Para isso, jurei à Constituição do Brasil", declarou. "O momento exige de todos nós a máxima transparência. Nâo vamos vacilar um segundo no interesse da coisa pública, o que está em jogo não são alguns parlamentares, funcionários, ministros. O que está em jogo é a respeitabilidade das instituições das quais sou o principal guardião." Para uma platéia com representantes de mais de cem países, um grande número de ministros e funcionários do governo, Lula observou que não é hora, neste momento político vivido pelo Brasil, de anunciar medidas administrativas extras de combate à corrupção, mas ressaltou que uma reforma política se faz urgente. "Não serão panacéias que resolverão problemas que se arrastam há décadas. Não esperem de mim medidas populistas a um ano e meio antes das eleições. Os obstáculos, por maiores que possam parecer, sempre oferecem soluções. Estou seguro que o país sairá mais fortalecido dessa conjuntura." Lula contou para os participantes do fórum que ontem ainda decidiu afastar toda a diretoria dos Correios e o Instituto de Resseguros, órgãos públicos envolvidos em denúncias de corrupção. Lula fez um balanço de todas as ações implantadas pelo governo para evitar o desvio de dinheiro público desde que assumiu a Presidência e afirmou que não esqueceu os compromissos feitos durante a campanha eleitoral. Admitiu ainda que o Brasil está longe de acabar com a corrupção. "Muitas vezes ela está incrustada na alma e na consciência dos corruptos." O presidente observou, no entanto, que o país tem exemplos, como o impeachment de um presidente da República (Fernando Collor), além de delegados e juízes que foram presos. Lula classificou a corrupção de uma "chaga", uma "doença incurável" que ataca mais os países pobres e nâo prejudica tanto os ricos. "O que tem aumentado no Brasil não é a corrupção, mas o constante trabalho de combate à corrupção." Com elogios ao trabalho da imprensa em divulgar as denúncias, Lula afirmou que a maioria dos casos são antigos. Citou o caso da "Máfia dos Vampiros", que atuava há "12 anos" no Ministério da Saúde e a "Operação Curupira", que desmontou um esquema de corrupção no Ibama de Mato Grosso que "atuava desde a década de 90". Ao falar do trabalho da Polícia Federal, calculou 46 operações de combate ao desvio de verbas públicas de agosto de 2003 a maio de 2005, com 1.234 prisões envolvendo políticos, juízes, servidores públicos e empresários. Destacou ainda o trabalho da Corregedoria-Geral da União. Durante a abertura do fórum, o presidente assinou a ratificação da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção. O Brasil foi o 26º país a ratificar a convenção - são necessárias 30 para que entre em vigor. Em seu discurso, o diretor executivo do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crimes, Antonio Maria Costa, não ignorou a crise política do Brasil e afirmou que o fórum está ocorrendo no lugar certo: "Toda crise oferece uma oportunidade para se envolver com reformas e ações para remediar o problema".