Título: Brasil é destaque entre emergentes, diz consultor
Autor: Luciana Monteiro
Fonte: Valor Econômico, 08/06/2005, EU &, p. D2

Mercado de Capitais Apesar do efeito dos juros locais elevados, o indiano Aswath Damodaran se mostra otimista com fluxo de recursos para o país

O Brasil, cedo ou tarde, poderá pagar um preço alto por manter a taxa básica de juros em níveis tão elevados. A economia tende a se desaquecer e comprometer o objetivo do governo de crescimento sustentável. O alerta é do professor e consultor da Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque, Aswath Damodaran. Ele chega ao Brasil neste mês para participar de três seminários entre os dias 13, 15 e 16 sobre "Valuation", promovido pela Alliance Corporate Education no Rio, São Paulo e Porto Alegre, respectivamente. Apesar da opinião um pouco sombria, Damodaran é um otimista quando o assunto é o mercado de capitais brasileiro. Ele acredita que o país tem muitas oportunidades de crescimento diante de sua população diversificada e da quantidade de recursos naturais. Não por acaso, ele cita como os setores da bolsa brasileira com maior potencial de ganhos mineração, petróleo e papel e celulose. Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida com exclusividade ao Valor: Valor: Quais são as perspectivas para o mercado acionário brasileiro neste ano e no longo prazo? Aswath Damodaran: Sou otimista com relação à economia brasileira e seu mercado acionário. O Brasil tem muitas oportunidades de crescimento em função de sua população diversificada e sua vasta quantidade de recursos naturais. É, portanto, razoável esperar crescimento de longo prazo no mercado acionário. O crescimento econômico está associado ao aumento de valor das ações, no longo prazo. Valor: Como o senhor vê o mercado de ações do Brasil frente às demais bolsas dos países emergentes como China, Rússia e Índia? Damodaran: A China e a Índia têm uma enorme base populacional e têm integrado suas economias aos mercados mundiais, tanto comerciais quanto de investimentos. Conseqüentemente, estão crescendo com muita rapidez. O Brasil ainda tem desafios importantes no que se refere aos aspectos fiscal, institucional e social. Além dos seus recursos naturais, o Brasil precisa investir na população, em itens como educação, saúde, infraestrutura e controle do crime e da corrupção. Isso tudo é difícil se a taxa de natalidade for perversamente distribuída, sendo maior onde há menos educação e recursos. Valor: O Brasil já não demonstrou que é uma economia estável? Damodaran: O Brasil já mostrou que consegue controlar seus gastos e sua moeda. Precisa agora gastar melhor, para poder aumentar sua competitividade mundial, e desta forma, entrar em um ritmo de crescimento mais acelerado. Valor: Na sua opinião, quais são os setores com as melhores perspectivas de ganhos no Brasil? Damodaran: Setores como mineração, petróleo, papel e celulose, oferecem as melhores oportunidades porque é onde o Brasil tem as maiores vantagens competitivas. No longo prazo, os países tendem a se dar melhor naquilo que eles têm mais vantagens comparativas. Valor: Como o senhor vê os efeitos da alta da taxa de juros americana nos mercados emergentes? A aversão dos investidores por esses países pode aumentar? Damodaran: Se a economia americana estiver com forte crescimento - que é o que pode levar os juros a subirem - o resultado final deve ser positivo para os mercados emergentes. Para o Brasil, isso impulsionaria ainda mais o comércio entre os dois países já que os Estados Unidos são o seu maior parceiro comercial. Mas a possibilidade do "flight to quality" (vôo para a qualidade) existe, já que o maior retorno oferecido pelos emergentes implica em maior risco, e a preocupação dos investidores reside em não perder. Acredito porém que os EUA devem continuar o aumento gradual das "fed rates", o que, somado ao crescimento, não deve impactar fortemente o fluxo para emergentes, salvo uma crise. Valor: Qual a sua expectativa para o mercado acionário brasileiro frente à alta taxa de juros do país? Damodaran: Os investidores brasileiros já esperam a queda da taxa de juros. O efeito inicial do aumento dos juros pode até ser positivo, uma vez que o "spread" (diferença) entre as taxas internas e externas acabam motivando o fluxo de capitais internacionais para o Brasil. No entanto, "não há almoço de graça". Cedo ou tarde (acredito particularmente que cedo) o Brasil pagará o preço por manter os juros elevados. A economia desaquece, comprometendo o objetivo do governo de crescimento sustentável. Valor: Qual a influência do preço das commodities nos emergentes? Quais as perspectivas para o mercado de commodities? Damodaran: Geralmente, esses mercados beneficiam os países emergentes que são fontes de matérias-primas, mas os efeitos também podem ser devastadores sobre aqueles que são fortes compradores. A cotação internacional das commodities tem efeito direto na economia dos emergentes. As empresas que exportam e têm sua receita atrelada ao preço internacional das commodities são afetadas de maneira direta pelo comportamento dos mercados mundiais. Uma generalização para as commodities é difícil de se prever, já que os ciclos de preços que elas normalmente apresentam nem sempre são coincidentes. Valor: E com relação ao petróleo? Damodaran: O preço de algumas commodities, como o petróleo, tem não só efeito direto como indireto. O petróleo pode influenciar o comportamento da economia como um todo, reduzindo as perspectivas de crescimento quando disparam as cotações internacionais. Valor: O senhor acha que o Brasil irá atrair uma boa dose de capital estrangeiro neste ano? Damodaran: Sim, mas há vários competidores. O diferencial de juros deve continuar atraindo capital para o Brasil. Esse capital, no entanto, é de curto prazo, que pode sair tão rápido quanto ingressou. Apesar de eu esperar um fluxo de investimento direto para o país acima do registrado no ano passado (previsão para 2005 de US$ 17 bilhões), acredito que ainda é um valor modesto para um país com o potencial do Brasil. O ambiente regulatório instável, a economia com alguns aspectos voláteis e a burocracia ainda impedem o país de melhorar nesse aspecto. Valor: Na sua opinião, a lei Sarbanes-Oxley (que regula o mercado americano) reduzirá o volume de American Depositary Receipts (ADRs) de emergentes em Nova York? As companhias podem mudar para outros mercados? Damodaran: Não, porque o mercado americano ainda é o mais líquido do mundo. Após as crises vividas por Enron, WorldCom e outras empresas, o ambiente de negócios nos EUA viu a necessidade de maior transparência, fator fundamental em qualquer mercado. Entendo que, como não houve uma forte saída de companhias dos EUA até hoje, a lei tem até o potencial de ajudar a aumentar o volume, apesar de poder aumentar os custos das empresas. Tudo vai depender da forma como a lei for interpretada.