Título: Indústria negocia novas reduções de preço
Autor: Raquel Landim, Raquel Salgado e Chico Santos
Fonte: Valor Econômico, 10/06/2005, Brasil, p. A3

Conjuntura Aço cai até 22% no mercado internacional e empresas pressionam usinas por queda no mercado local

Depois de meses de forte pressão de custos, as indústrias estão negociando redução de preço com seus fornecedores. A queda das commodities agrícolas e metálicas e o câmbio valorizado aumentaram o poder de barganha das empresas. Nesse cenário, a baixa dos preços industriais (deflação de 0,38% no IGP-DI de maio), pode se intensificar em junho. Na cadeia do aço, siderúrgicas e montadoras estão em cabo-de-guerra pelos preços. No setor alimentício, as empresas estão repassando a queda das commodities ao varejo. E, para os produtos de alta tecnologia, o impacto do dólar barato é praticamente imediato. As cotações das bobinas a quente, matéria-prima da indústria automobilística, despencaram 22% desde o início do ano no mercado internacional. A maior parte da perda ocorreu em junho. De 31 de maio até ontem, esse produto registrou baixa de 13%. As cotações das placas de aço caíram 14% desde janeiro, para US$ 445 por tonelada. No vergalhão, insumo para a construção civil, a perda foi de 13%, para US$ 400 por tonelada. De acordo com Sérgio Conti, economista da Tendências Consultoria Integrada, a forte queda nos preços das bobinas a quente e das placas de aço está surpreendendo. Ele credita o fenômeno ao forte acúmulo de estoques nos Estados Unidos e aos sinais de arrefecimento da demanda chinesa. Atentas ao movimento de retração no mercado internacional, montadoras e fabricantes de autopeças pressionam as siderúrgicas por menores preços. "Lá fora, o preço do aço já cedeu 20%. No Brasil, não caiu nada", reclama Paulo Butori, presidente do Sindipeças. As siderúrgicas querem segurar ao máximo os preços, porque aceitaram um reajuste recorde de 81% no minério de ferro realizado pela Vale do Rio Doce no início do ano. Na época, as siderúrgicas esperavam repassar uma parte para o restante da cadeia, mas o cenário de oferta e demanda mudou. Hoje, o cenário é de acúmulo de estoques. Segundo Carlos Loureiro, presidente da Rio Negro, as distribuidoras de aço reduziram entre 10% e 12% seus preços no mês de maio. "As vendas continuaram caindo em maio e os estoques estava altos, então foi preciso reduzir a margem de lucro", explica. A Fupresa, fabricante de fundidos de precisão, ainda não viu a queda dos preços do aço. "Estamos na expectativa", diz André Bevilácqua, analista de custos e orçamento da empresa. Segundo Butori, fabricantes de autopeças e montadoras devem começar a importar aço, caso os preços não recuem. A conjuntura favorece a importação: o dólar está barato, o governo zerou tarifas de importação para alguns tipos de aço e os preços internacionais estão em queda. A Ford anunciou essa semana que começa a importar bobinas a quente dos Estados Unidos no segundo semestre. O impacto da queda dos preços industriais não está restrito ao aço. As resinas termoplásticas também estão hoje cerca de 10% mais baratas do que há três meses, mas não por falta de demanda, diz o diretor-superintendente da Polibrasil, José Ricardo Roriz Coelho. Segundo ele, a redução está relacionada à recente queda do preço do petróleo, após o barril ter atingido quase US$ 60. "A Petrobras baixou em 14% o preço da nafta (insumo básico da petroquímica) agora em junho e estamos repassando essa queda para o mercado. As resinas estão mais baratas", disse. A empresa é o maior fabricante interno de polipropileno, resina para produção de vários tipos de plásticos. Segundo Coelho, o mercado está "normal" em termos de demanda. Sua única preocupação é a permanência dos juros elevados combinada com uma eventual contaminação do ambiente econômico pela crise política atual. Segundo Rogério Mani, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Flexíveis (Abiefe), a queda dos preços das resinas plásticas ainda não chegará ao consumidor final, pois o produto ficou 70% mais caro ao longo de 2004, o que pressionou os custos do setor de embalagens. No setor de alta tecnologia, os preços dos produtos industriais estão caindo por conta do câmbio e da maior concorrência interna. José Roberto Campos, vice-presidente executivo da Samsung, explica que o impacto do câmbio é imediato para alguns produtos. Como boa parte da matéria-prima é importada, as fabricantes de celulares fecham contratos com as operadoras em dólar. Desde o início do ano, a moeda americana subiu quase 20% ante o real. "Os preços dos celulares para as operadoras caíram na mesma proporção em reais, o que abre espaço para promoções ao consumidor", diz. O executivo também destaca a forte queda nos preços de alguns produtos da linha marrom. Segundo ele, a TV de plasma de 42 polegadas caiu de R$ 22 mil para cerca de R$ 15 mil no varejo em dois meses. "Uma empresa tentou baixar preço e o mercado ficou mais competitivo", conta. Ele está negociando com fornecedores de partes e peças para se adequar a nova realidade de preços do mercado. Para o economista Fábio Silveira, sócio-diretor da MS Consult, o cenário para o petróleo no médio prazo é otimista. Em junho, véspera de férias, a expectativa é que o insumo suba e chegue a US$ 51 o barril. Depois, a tendência é queda suave para fechar o ano em US$ 45. Ao mesmo tempo, Silveira lembra que o dólar caiu cerca de 9% nos últimos dois meses em relação ao real e que os efeitos da valorização do câmbio ainda não foram amplamente sentidos pelo atacado. Ele espera que os preços industriais medidos pela FGV, apresentem nova deflação este mês e, a partir de julho, variações positivas, mas bem discretas.