Título: Cresce número de mulheres que vivem sozinhas, revela pesquisa
Autor: Chico Santos
Fonte: Valor Econômico, 10/06/2005, Brasil, p. A4

A independência econômica conquistada pelas mulheres, especialmente a partir do final dos anos 60, está levando a que elas, cada vez mais, prefiram viver sozinhas ou decidam adiar o momento de manter uma relação conjugal. Essa é uma das principais conclusões da pesquisa Sexo, Casamento e Economia, divulgada ontem pelo economista Marcelo Neri, pesquisador do Centro de Políticas Sociais (CPS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Entre 1970 e 2000, a parcela de mulheres solteiras, descasadas ou viúvas na população feminina de 20 anos de idade ou mais passou de 35,5% para 38,4%. O trabalho constatou que, em 2000, a renda média mensal das mulheres sozinhas era 62% maior do que a das acompanhadas. "A economia foi fundamental (para o aumento do número de mulheres sozinhas). A revolução feita pelas mulheres, e no mercado de trabalho, criou a oportunidade para elas optarem entre ficar sozinhas ou acompanhadas. Os antigos casamentos indissolúveis, entre aspas, talvez fossem assim por força de uma dependência econômica", analisou Neri. Ele destacou que o crescimento do número de mulheres sozinhas tem um componente de idade: as mulheres, em 74% dos casos, casam com homens mais velhos e os homens vivem normalmente menos do que elas. Segundo os dados da pesquisa, baseada nos números do Censo Demográfico do IBGE, havia, em 2000, 52,1 milhões de mulheres de 20 anos ou mais no Brasil, das quais 19,7 milhões viviam sem cônjuge. Essas mulheres sem marido ou companheiro tinham renda média mensal de R$ 395,57 (em reais da época), em comparação com R$ 244,22 daquelas que tinham marido ou companheiro. O rendimento do trabalho principal representava para as mulheres sozinhas 55,6% dos rendimentos totais, enquanto entre as acompanhadas respondiam por 77,05%. A diferença é explicada pelo fato de que as pensões e aposentadorias representavam 31,35% dos rendimentos das sozinhas. O dado sustenta a interpretação que, além da renda, o movimento de solidão conjugal das mulheres é sustentado também pelo direito previdenciário (aposentadoria) e de família (pensões). O trabalho revela que na população de mulheres de 20 anos ou mais, em 2000, havia mais desempregadas acompanhadas (55,78%) do que sozinhas (44,22). A proporção de empregadas com carteira assinada entre as acompanhadas (52,07%) também era maior que entra as sozinhas (47,93%). O trabalho não-remunerado era muito pouco entre as sozinhas (12,64%), enquanto as acompanhadas representavam 87,36% das mulheres que trabalhavam nessa condição. Por faixa de instrução, onde a proporção de sozinhas, ainda minoritárias na população de mulheres, mais se aproxima da de acompanhadas é na de 12 anos de estudo ou mais. São 48,54% do total, ante 51,46% das acompanhadas. Na faixa com menos de um ano de instrução ou sem instrução, as sozinhas são 44,61%, e as acompanhadas 55,39%. A pesquisa constatou que a parcela de sozinhas é maior nas capitais, embora, proporcionalmente, o município com maior parcela de sozinhas (54,74%) seja Jussiape, na Bahia, com pouco mais de dez mil habitantes.