Título: Pont ameaça presença gaúcha no governo
Autor: Sérgio Bueno
Fonte: Valor Econômico, 21/10/2004, Política, p. A-6

Ao mesmo tempo em que procura dar um empurrão de última hora nas principais candidaturas do PT no segundo turno, incluindo a visita de ontem a São Paulo e a gravação, prevista para hoje ou amanhã, para o programa eleitoral de Raul Pont, que corre atrás nas pesquisas em Porto Alegre, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está esperando o resultado da votação do dia 31 para definir mudanças no ministério. Oficialmente ainda não há nomes definidos sobre quem entra ou quem sai, mas a preocupação do presidente é acomodar a nova correlação de forças políticas que irá emergir da eleição. A mudança de algumas peças no primeiro escalão é tida como certa por integrantes do governo, mas Lula vem mantendo um comportamento discreto a respeito do assunto, ouvindo mais do que expondo suas próprias opiniões. Uma das indagações correntes no Planalto é se o PT gaúcho, numa eventual derrota de Pont, não ficará menor do que a sua representação atual no Executivo, onde detém os ministérios das Cidades, do Desenvolvimento Agrário, de Minas e Energia e da Educação. O ministro das Cidades, Olívio Dutra, seria o mais cotado para deixar o cargo, embora esta não seja a primeira vez em que correm rumores sobre a eventual substituição do ex-governador do Rio Grande do Sul. O ministério é visto como atrativo pelos partidos aliados e não estaria entre as pastas que garantem os maiores dividendos políticos ao governo federal, mas até agora Dutra, que mantém estreita amizade com Lula, vem conseguindo resistir ao assédio. O presidente do partido no Rio Grande do Sul, Davi Stival, afirma que o resultado da eleição em Porto Alegre nada tem a ver com a participação do PT gaúcho no governo federal. "São coisas separadas", afirma. Mesmo assim, ele admite que uma derrota para José Fogaça (PPS) na capital criaria um "símbolo negativo" e tiraria até parte do "sabor" de possíveis vitórias em Caxias do Sul e Pelotas, onde os petistas estão em situação de empate técnico contra adversários do PMDB e PPS, respectivamente, conforme diferentes institutos de pesquisa. A preocupação da cúpula petista aumentou ontem, depois que o jornal "Zero Hora" publicou o segundo levantamento de intenção de voto para o segundo turno da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A pesquisa mostrou uma evolução de 44,3% para 50,1% na preferência por Fogaça desde o início do mês, enquanto Pont caiu de 45,1% para 41,4% e os votos brancos, nulos e indecisos recuaram de 10,6% para 8,5%. O resultado alinha-se aos números apurados nas últimas duas semanas pelo Ibope (51% a 39% para Fogaça) e pelo jornal "Correio do Povo" (51,3% a 41,7%). Mostra ainda que o candidato do PT, que venceu o primeiro turno com 37,6% dos votos contra 28,3% de Fogaça, praticamente só conseguiu atrair, no segundo, os eleitores de Beto Albuquerque (PSB), que recebeu 3%, mais os do PSTU e PCO, que totalizaram menos de 1%. Já a maior parte dos 30% obtidos no primeiro turno pelos agora aliados do PPS (PFL, PDT, PMDB e PP) correu para Fogaça. Ainda assim, o deputado estadual Estilac Xavier, que desempenha o papel de líder do governo Lula na Assembléia Legislativa gaúcha, acredita numa "virada" de Pont até o dia 31 e na preservação do espaço gaúcho no ministério. Ele confia no reforço da militância e na propaganda gratuita para "desconstituir o antipetismo odioso" fomentado pelos adversários, mas admite que o desempenho de Pont nas pesquisas pode estar associado ao descontentamento de uma parcela dos eleitores com o governo federal e também a "erros políticos" do próprio partido. "Não temos conseguido agregar os setores médios com o debate sobre o Orçamento Participativo, mas ainda há tempo de resolver esta relação", comenta o deputado. "Estamos tentando dialogar com os setores da classe média que votavam em nós para estancar a transferência desses votos", acrescenta Stival. Segundo o presidente estadual do PT, o desafio é contornar o desgaste "natural" da relação entre o partido e alguns segmentos sociais após 16 anos de administração na cidade. Stival também entende que o PT não conseguiu romper, em Porto Alegre, o bloco de "centro-direita" que se formou em torno de Fogaça no segundo turno. Na opinião dele, independente do resultado do dia 31, o partido tem a "necessidade de construir uma hegemonia de centro-esquerda para 2006" no Estado, assim como conseguiu fazer o governo do presidente Lula. Outro problema que vem ajudando a complicar a campanha petista no segundo turno é o clima ruim que se instalou entre os petistas responsáveis pela produção da propaganda gratuita desde a chegada da equipe do marqueteiro Duda Mendonça. Integrantes do grupo original, que fizeram a campanha no primeiro turno sentem-se postos de lado e argumentam que o trabalho está seguindo uma linha "pasteurizada". "A equipe (de Duda Mendonça) é competente e está dialogando com a direção política para ter a realidade específica do Estado; estamos estabelecendo esta relação", amenizou Stival.