Título: PMDB mantém-se como o fiel da balança
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 14/06/2005, Política, p. A10

O PMDB decidiu, em público, recuar da aproximação que pode levá-lo a ampliar seu espaço na administração federal como resposta às denúncias envolvendo o deputado Roberto Jefferson (RJ). O partido irá favorecer a instalação das CPIs que investigam o caso, enquanto busca se unir para negociar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A estratégia da sigla, por ora, não será nem se aliar ao PT para conter o processo parlamentar e nem à oposição, para aumentar o desgaste governista. "O partido não vai blindar ninguém e nem favorecer antecipação de palanque eleitoral", disse o presidente da sigla, o deputado Michel Temer (SP). Ontem, em São Paulo, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse que não há hipótese de uma possível reforma ministerial aumentando o espaço do partido em troca de proteção no Congresso ser feita agora. "Nada, absolutamente nada, substitui a investigação", afirmou, ao responder a uma pergunta sobre se a reforma ministerial seria uma saída do governo para a crise. Mas o alagoano mostrou simpatia pela idéia de uma mudança no governo. Defendeu "um choque de gestão administrativa", mas ponderou: "Não sei se por uma reforma ministerial ou não". Segundo o senador, o "choque de gestão" permitiria ao governo ir para a ofensiva. "Nos dois primeiros anos do governo, havia uma agenda e de um ano para cá, parece que se perdeu o rumo. Em vez do Executivo pautar a mídia e o Congresso, é pautado", disse. De acordo com Calheiros, hoje é possível que ele aceite a instalação da "CPI do Mensalão", que funcionaria de modo paralelo à dos Correios. "Se preencher os requisitos constitucionais, vou dar o tratamento que a outra recebe". Durante os últimos dias, houve uma série de encontros entre os dirigentes pemedebistas para discutir a crise no governo. Calheiros e o ex-presidente José Sarney conversaram com Temer, que entrou em contato com o principal presidenciável do partido, o ex-governador Anthony Garotinho (RJ). Segundo Temer, há consenso de aguardar para ter a exata dimensão da crise em que o governo está envolvido, antes de se tomar uma decisão. O depoimento de Jefferson no Conselho de Ética da Câmara, que acontece hoje, é visto como decisivo pelos pemedebistas para a avaliação. Ontem à noite, era previsto um encontro de Renan com o presidente. Segundo o pemedebista, seria negociada a retirada de medidas provisórias para facilitar a votação de matérias no Legislativo, entre elas a emenda constitucional que acaba com a verticalização, uma das prioridades do senador. Mesmo na ala governista, não há otimismo com a aproximação. Para o líder do partido no Senado, Ney Suassuna (PB), o relacionamento institucional do PMDB com o Executivo permanece "como dantes, no quartel de Abrantes". Na visão de pemedebistas, o governo ainda não deu sinais concretos à cúpula do partido de que vai mesmo ampliar a participação do PMDB no primeiro escalão com uma reforma ministerial urgente. "Eles pretendem mostrar que a relação institucional com o PMDB está funcionando. E só isso. Não sabemos por quanto tempo", diagnosticou um integrante do PMDB. (Colaborou Maria Lúcia Delgado, de Brasília)