Título: Copom tem mais motivos para pôr fim à alta do juro
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 14/06/2005, Opinião, p. A12
A inflação não resistiu à forte dose de juros e valorização cambial. Como todos os índices relevantes já apontaram, os preços estão recuando acentuadamente, enquanto a atividade econômica se desacelera. Nestas circunstâncias, não há praticamente dúvidas no mercado financeiro de que o Banco Central deveria encerrar o ciclo de alta dos juros. A dúvida é exatamente a atitude do Comitê de Política Monetária. Há sinais de que alguns de seus membros não consideram o desaquecimento econômico suficiente para que a inflação retorne para perto das metas do ano. Há uma conjunção de indicadores que tornam viável a interrupção da trajetória de alta dos juros e sua inversão, o mais rapidamente possível. O IGP-DI de maio ficou um pouco abaixo até da mais otimista das expectativas, e fechou o mês com deflação de 0,25%, a menor em quase dois anos. Os preços industriais no atacado, que durante meses foram os vilões do índice, puxaram o recuo e terminaram o mês em -0,38%. O IPC mostrou evolução mais lenta - 0,79% contra 0,88% em abril - , mas é certo que um alívio no atacado se refletirá em evolução mais comedida dos preços no varejo nos próximos meses. Essa tendência já apareceu no IPCA de maio, que declinou de 0,87% para 0,49%. Em linha com estes resultados veio o IPC-Fipe, de São Paulo, que registrou apenas 0,19%, metade da inflação na primeira semana de junho ante o do mesmo período de maio. A primeira prévia do IGP-M marchou na mesma direção. Nele, o índice de preços por atacado aprofundou seu recuo, de deflação de 0,4% para deflação de 0,79%, e o IPC despencou - 0,08% contra 0,72% da primeira prévia do mês anterior. A freada dos preços convenceu o mercado financeiro de sua consistência. Pela quarta semana consecutiva, o boletim Focus, do BC, apontou para expectativas menores para a inflação do ano corrente. Na última semana, ela caiu de 6,32% para 6,21%. Tão importante quanto essa projeção é a previsão para o comportamento dos preços nos próximos doze meses. Ela caiu de 5,46% há quatro semanas para 5,11% agora, o que indica que a inflação já se move na mesma velocidade que a meta prevista para este ano pelo BC, de 5,1%. Para as "top 5", as instituições que mais acertam nas previsões, em 2006 a inflação será de 4,88%, muito próxima do centro da meta fixada para o exercício, de 4,5%. Se quando a inflação ameaçou fugir das metas teve a contribuição forte de commodities com preços internacionalizados, ela agora entra nos trilhos com a reversão do movimento destes bens. Como mostrou o Valor na edição de 10 de junho, várias empresas estão reduzindo os preços de seus produtos, como no setor de alimentos e de alta tecnologia. A Petrobras derrubou o preço da nafta em 14% em junho, um corte que foi repassado ao longo da cadeia. E, onde não houve correção para baixo dos preços, como no caso das siderúrgicas, a pressão é grande para que isto aconteça. Com a economia em desaceleração, a ameaça da importação tem maiores chances de derrubar os preços internos. Como informou o Valor, grandes empresas industriais e do varejo já ampliaram as compras externas - os bens importados estão com preços menores e têm tido uma procura maior do que há alguns meses. O recuo dos preços se faz acompanhar por uma desaceleração constante das atividades econômicas. O PIB do primeiro trimestre mostrou pequeno avanço, de 0,3%, e os primeiros dados de abril, para a indústria de transformação, mostram estabilidade. O lado ruim da história, apontado pelos números do IBGE, é que os investimentos estão em compasso de espera - a Formação Bruta de Capital Fixo declinou pelo segundo trimestre consecutivo. Todo o dilema da possibilidade de expansão da economia dos próximos meses gira em torno disso. Com altas taxas de juros, é impossível preparar a capacidade de produção atual ao nível que, no futuro, não produza gargalos inflacionários. A receita da política monetária apenas usa freios conhecidos, com as péssimas repercussões conhecidas. Há anos o Brasil não deixa estes ciclos de altos e baixos e nem mesmo o excepcional cenário externo nos últimos dois anos foi plenamente aproveitado. As projeções para a evolução do PIB, ao redor de 3%, indicam que o BC provavelmente errou a mão na dose dos juros. Seja como for, os sinais cristalinos, daqui para frente, são de que a atual taxa, de 19,75%, não mais se justifica. É hora de parar de aumentar os juros e, logo na primeira oportunidade, reduzi-los com a rapidez que a prudência recomendar.