Título: Cardápio de CDBs
Autor: Angelo Pavini
Fonte: Valor Econômico, 14/06/2005, EU &, p. D1

Bancos criam papéis com retornos e vantagens diferenciadas para conquistar o investidor

A concorrência entre os bancos para atrair investidores em Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) está levando as instituições a criar papéis com vantagens adicionais. Alguns levam em conta as aplicações antigas na hora de negociar taxas e outros dão linhas de crédito vinculadas à aplicação. Outros, como o Banco Alfa, pagam juros mais altos para quem ficar mais tempo com o papel. No ano, até dia 6, o total de CDBs chegou a R$ 196 bilhões, um crescimento de 14,4%, segundo dados do Banco Central (BC). A procura por crédito fez os bancos aumentarem a remuneração paga aos investidores. Mas, para valores pequenos, ainda é preciso fazer contas para ver se não é vantagem aplicar em um fundo DI. Um aplicador de R$ 1 mil deverá receber em um papel pós-fixado de um grande banco cerca de 75% do CDI, ou 14,81% brutos (antes do imposto de renda) imaginando-se a atual taxa Selic de 19,75%. O rendimento seria equivalente ao de um fundo DI que cobrasse 5% ao ano de taxa de administração. Se o CDB pagar 80% do CDI, ou 15,80%, o fundo compensará se tiver taxa de administração abaixo de 4%. Se a remuneração do CDB for de 90% do CDI, a taxa do fundo teria de ser menor que 2% para valer a pena. Uma medida que pode afetar ainda mais os CDBs de menor porte é a exigência do BC para que, a partir de julho, os bancos registrem os papéis na Câmara de Custódia e Liquidação (Cetip) sempre que o valor investido superar R$ 50 mil por cliente. Alguns bancos podem reduzir a remuneração paga para compensar o custo do registro e a burocracia, diz Sérgio Oliveira, diretor gerente do Bradesco. O motivo do registro na Cetip é o fato de os bancos estarem alongando os prazos dos CDBs, até cinco anos, mas garantindo a recompra imediata, para que os investidores se beneficiem das alíquotas menores de imposto de renda nas aplicações acima de dois anos sem perder a liquidez diária. Com isso, criou-se no mercado a figura do "CDB eterno enquanto dure", que não aparece na contabilidade do banco. Com o registro, ficará clara a condição de papel com liquidez diária e sua forma de remuneração. Para o investidor que tem mais de R$ 250 mil, já é possível conseguir um CDB que pague 99% do CDI. E, em alguns casos, até mais. "A partir de R$ 1 milhão já é possível conseguir 100% a 101% do CDI", diz Ivan Dumont da Silva, diretor tesoureiro do Banco Alfa. No caso do Alfa, a opção para atrair os clientes foi criar um CDB que premia quem fica mais tempo com os recursos aplicados. Chamado de CDB Progressivo, ele garante ao investidor que ficar seis meses 99% do CDI, de seis meses a um ano e meio, 100% do CDI, de um ano e meio a dois, 100,5% e, acima de dois anos, 101% do CDI. "Começamos em abril e a aceitação está boa entre os clientes de private banks", diz Silva, acrescentando que o banco já captou mais de R$ 60 milhões com o novo CDB. Hoje em dia, a procura é maior por CDBs indexados ao CDI e as emissões têm prazo mínimo de dois anos para garantir a alíquota menor de IR, explica Silva. Em geral o cliente precisa acertar na hora da aplicação se o papel vai ter liquidez diária ou só poderá ser resgatado no vencimento. O executivo lembra que há um pleito dos bancos para aumentar o valor do seguro de crédito, de R$ 20 mil para R$ 50 mil, e reduzir o valor das contribuições ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Hoje, os bancos recolhem 0,30% do valor dos CDBs para o FGC, e querem reduzir esse percentual para 0,10%. No Bradesco, os clientes podem aplicar a partir de R$ 1 mil em CDBs, com prazo de até cinco anos com liquidez diária, diz Sérgio de Oliveira. A maioria são papéis indexados ao CDI. O banco tinha na semana passada R$ 27 bilhões em CDBs, um crescimento de 14,5% no ano. Desse total, menos de 10% são prefixados. O prazo médio dos pós-fixados é de três anos e dos prefixados, 180 dias. No total, são dois milhões de investidores. Oliveira admite que pequenos investidores não conseguem uma boa taxa de CDB. Na média, um investidor para R$ 1 mil ou R$ 10 mil vai receber em torno de 75% do CDI no Bradesco. Acima de R$ 100 mil, pode chegar a negociar um pouco mais, perto dos 90% do CDI. O Banco Real criou em abril o Neo CDB Mais, que leva em conta as aplicações anteriores do investidor. "Quanto mais aplica, melhor taxa consegue", diz Eduardo Jurcevic responsável pela área comercial de investimento. Quem aplica R$ 2 mil, por exemplo, recebe 80% do CDI, mas na aplicação seguinte de R$ 2 mil, já receberá 86% do CDI, taxa paga para aplicações de R$ 4 mil. A aplicação mínima é de R$ 500 e o cliente consegue 100% do CDI a partir de R$ 400 mil. Lançado em abril, esse CDB já conta com R$ 250 milhões. O Real tem R$ 18 bilhões em CDBs, sendo R$ 8 bilhões de pessoas físicas. No Banco Itaú, além dos CDBs, o banco oferece operações compromissadas, que são papéis vendidos ao cliente com compromisso de recompra no futuro, explica Lavínia Moraes Junqueira, superintendente de estruturação de produtos. Segundo ela, a operação compromissada tem a vantagem para o banco de não recolher contribuição para o FGC, o que permite pagar um pouco mais ao cliente. Em compensação, o pequeno investidor não tem a cobertura do seguro. No Itaú, os clientes conseguem a taxa máxima de 98,5% em CDBs a partir de R$ 250 mil. Já nas operações compromissadas, essa taxa pode chegar a 99% do CDI. Um aplicador de R$ 20 mil em compromissada receberia cerca de 85% do CDI para dois anos. Para valores menores, de R$ 1 mil, a taxa ficaria entre 70% e 75% do CDI. O Itaú tem ainda o CDB bi-indexado para clientes do segmento Personnalité, que paga IGP-M mais juros ou uma taxa prefixada, o que for maior, ou IGP-M ou CDI. O prazo mínimo é de um ano, mas a média está em torno de três anos, com aplicação mínima de R$ 50 mil. Lavínia estima que o volume de CDBs no Itaú cresceu 300% de setembro até agora, com um total de R$ 8,2 bilhões . Há mais R$ 6 bilhões de compromissadas.