Título: Pesquisas nos EUA esbarram em novo quadro de eleitores
Autor: Tatiana Bautzer
Fonte: Valor Econômico, 21/10/2004, Internacional, p. A-9
A corrida para registrar novos eleitores nos últimos meses nos EUA está reduzindo a confiabilidade das pesquisas eleitorais, afirmam analistas políticos. O fenômeno torna ainda mais difícil prever o resultado das eleições presidenciais de novembro, somando-se à polarização do eleitorado e ao sistema de colégio eleitoral. Como o voto não é obrigatório nos EUA, os institutos de pesquisa diferenciam os grupos sondados entre "eleitores registrados" e "eleitores prováveis". Normalmente essas pesquisas têm resultados diferentes. Nas eleições de 2000, apenas 63% do total de eleitores registrados efetivamente foram às urnas- o que corresponde a apenas 50% da população adulta.
Matthew Smyth, do Centro de Política da Universidade de Virgínia, acredita que esse ano a presença da população nas urnas chegue a 57% dos adultos. Considerando os dados do Censo do ano passado, um aumento de 7% da população representaria 15 milhões de pessoas a mais, que não estão sendo computadas nas pesquisas - são novos eleitores ou eleitores registrados que não costumavam votar. A maior participação eleitoral ocorreu nos anos 60 e 70, quando os índices superaram 60% devido a outras questões que também polarizavam o eleitorado, como a Guerra do Vietnã e a Guerra Fria. "Sem dúvida, os novos registros distorcem as pesquisas, porque um dos critérios para determinar se a pessoa é um provável eleitor é sua participação em eleições anteriores", diz Smyth. O vice-presidente da consultoria Stonebridge, Joel Velasco, diz que na véspera das eleições os analistas vão prestar atenção até na previsão do tempo para estimar a presença nas urnas. Segundo o jornal "The New York Times", a campanha para reduzir a abstenção é a maior da história do país, com gastos de US$ 350 milhões por organizações independentes ligadas aos partidos. Os eleitores que não estão sendo contados poderiam beneficiar os dois lados. Elizabeth Edwards, mulher do candidato democrata a vice-presidente, disse recentemente numa festa de arrecadação de fundos em Washington que eleitores jovens do Partido Democrata não estavam sendo entrevistados porque só tinham telefone celular, fora das listas de números, e não fixos. O estrategista político da Casa Branca, Karl Rove, afirmou que na base do Partido Republicano há cerca de 4 milhões de evangélicos que não votaram nas eleições de 2000, o que poderia contribuir para uma vitória de Bush. Matthew Smyth faz parte da equipe da Universidade de Virgínia que avalia a situação no colégio eleitoral. O site da universidade, "Larry Sabato's Crystal Ball" (a bola de cristal de Larry Sabato, diretor do departamento de Política da universidade), projeta os resultados com base em pesquisas eleitorais estaduais. A última previsão do site dá vitória a Bush por 30 votos, mas Smyth diz estar analisando alguns novos dados nos Estados da Flórida e Ohio, que estão mostrando uma pequena vantagem para Kerry. "Mas o resultado está imprevisível, hoje há de 8 a 10 Estados nos quais republicanos ou democratas podem ganhar", diz. A grande polarização do eleitorado pode explicar porque apesar de altos índices de desaprovação ao governo de George W. Bush, o candidato democrata John Kerry não apresenta uma clara liderança em pesquisas eleitorais. "Muitos eleitores republicanos podem achar que o país está no caminho errado por causa dos problemas no Iraque e do déficit público, mas não cogitam votar num democrata", disse o vice-presidente da consultoria Stonebridge, Joel Velasco. "A polarização é muito grande e dificilmente eleitores republicanos votam em Kerry e vice-versa." Segundo a última pesquisa divulgada da Fox News/Opinion Dynamics, a aprovação de Bush caiu de 53%, no início do mês, para 49% no último fim de semana, após o último debate presidencial. Os últimos números da Reuters/Zogby mostram que Bush e Kerry estão empatados. Ambos tinham 45% no início do mês e agora ambos têm 46% da preferência do eleitorado. Ambas foram feitas com "prováveis eleitores".