Título: Empresas medem efeito do dólar
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 13/06/2005, Brasil, p. A2

A cotação do dólar abaixo de R$ 2,70 provocará, neste ano, redução de investimentos para exportação; aumentará a parcela da produção das empresas voltada ao mercado interno; já aumentou a proporção de empresas que compram no exterior partes e matérias-primas e vai aumentar a importação de insumos para empresas em 2005. É o quadro levantado pela Confederação Nacional da Indústria, na sondagem feita entre março e abril com pouco mais de 1,4 mil empresas, 206 delas entre as maiores do país. O levantamento mostrou que cada vez mais empresas vêem esforços de exportação esbarrarem na precariedade da infra-estrutura e se queixam da burocracia, obstáculos que há tempos pedem solução por parte do governo. A novidade na queixa contra o dólar e seus efeitos perniciosos sobre as decisões de investimento para exportação são os números usados para sustentá-la, pela CNI. Embora tenha aumentado um pouco o percentual de grandes empresas exportadoras, de 78% para 79%, o percentual de pequenas e médias que exportam caiu de 37%, em 2003, para 35% no ano passado. Entre as grandes empresas, a participação das exportações no faturamento ficou na mesma, em 2003 e 2004, pouco abaixo de 23%. Mas caiu entre as pequenas e médias empresas, de 8,1% para 7,4%. Parte da queda vem da redução do preços das exportações, em reais; parte é desvio para o mercado interno, conclui a CNI. Os indicadores de expectativas dos empresários em relação ao futuro das exportações mostra otimismo, porém, e os setores que mais apostam em crescimento são os de farmacêuticos, bebidas e química. Mas os economistas da CNI insistem que a valorização do real vai afetar seriamente o desempenho futuro das exportações. Justificativa: ao responderem o que farão se o dólar continuar abaixo de R$ 2,70, apenas 28% das exportadoras disseram que não irão alterar a estratégia. Do total de grandes empresas entrevistadas, 35% dizem que vão concentrar esforços no mercado interno, caso o dólar continue abaixo dos R$ 2,70; e pouco mais de 25% deverão reduzir os investimentos para exportação. Interromperão as vendas externas 5% das grandes empresas entrevistadas. Entre as empresas que exportam, mas também compram insumos do exterior, a maioria defende que o dólar seja cotado acima de R$ 2,86.

Esforço de exportação esbarra na burocracia

A sondagem industrial mostra que as empresas que usam importados na produção aumentaram bastante: eram 62% das grandes empresas e 30% das pequenas ou médias, em 2003, e passaram a ser 69% das grandes, e 34% das menores. Em provável efeito do preço e da cotação do dólar, a participação dos importados no custo de insumos e matérias-primas aumentou pouco; passou de 13% para 14% nas grandes empresas, e de 7,6% para 8,3% entre pequenas e médias. Entre os 17 setores pesquisados, o único com tendência de reduzir importações é o de madeira; 5 devem manter os mesmos níveis e 11 anunciam intenção de aumentar a compra de matérias-primas e insumos no exterior. Entre esses, os que mostram maior interesse por fornecedores externos são os setores farmacêutico e de material de transporte. O efeito da valorização do real, nessas empresas, é notável: para o setor farmacêutico, um dos mais intensivos em importados na produção, o custo com matérias-primas e insumos importados caiu de 36,1% em 2003 para 31,7% em 2004. A pressão para aumento de importações e redução do estímulo para exportar não deixou os empresários mais pessimistas em relação ao futuro do comércio exterior. A CNI reconhece que há apenas ligeiro sinal de arrefecimento nas expectativas para exportações, em parte explicada pelo forte crescimento das vendas em 2003 e 2004. Um item interessante da pesquisa é a consulta sobre entraves às exportações, que indica o quanto falta maior trabalho do governo e como ainda há espaço para aumentar a competitividade, ainda que com o real valorizado. Impressionantes 38% dos pequenos e médios empresários acusam a burocracia nas alfândegas de ser o maior entrave às vendas para o exterior (bem mais que os 28% com essa queixa em 2003); 32% culpam a burocracia tributária. Entre as grandes empresas, 43% consideram as altas de preço nos fretes internacionais o problema mais relevante; mas significativos 38% apontam como maior problema os custos portuários e a burocracia nas alfândegas Há menos empresas se queixando da falta de canais de comercialização adequados e de financiamento à exportação; mas aumentou a quantidade dos que dizem sofrer com a burocracia, custos portuários e preço de frete.