Título: Inflação no varejo deve ceder este mês
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 13/06/2005, Brasil, p. A3

A inflação dá mostras significativas de que perde força, reagindo à desaceleração da atividade econômica e à valorização do câmbio. Três índices de preços divulgados na sexta-feira confirmaram esse movimento e, com isso, reforçaram as apostas de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de junho deve ficar bem comportado, na casa de 0,25% a 0,35%. A expectativa é que os resultados favoráveis registrados em maio no atacado- tanto no caso dos preços agrícolas como nos industriais - vão chegar com mais intensidade ao varejo neste mês. O primeiro indicador positivo foi o IPCA de maio, que teve variação de 0,49%, bem abaixo do 0,87% de abril, e no piso das estimativas dos analistas. O resultado mais favorável do indicador, referência para o regime de metas de inflação, se deveu a aumentos menores dos preços administrados, como tarifas públicas, e alimentos, além de refletir a queda dos combustíveis. O núcleo do IPCA, calculado pela exclusão dos preços administrados e alimentos, ficou em 0,57%, abaixo do 0,71% de abril. É um número ainda relativamente alto, mas que deve ceder nos próximos meses. O economista-chefe do HSBC, Alexandre Bassoli, diz que o resultado foi positivo, indicando uma queda mais consistente da inflação, que deve continuar no IPCA de junho. Os preços dos alimentos devem ajudar ainda mais neste mês, afirma ele. Divulgadas na sexta-feira, as primeiras prévias de junho do Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M) e do IPC da Fipe mostraram que os preços ao consumidor já estão bem mais tranqüilos, e em boa parte devido ao recuo dos preços do grupo alimentação. Depois de registrarem deflação no atacado em maio, as cotações desses produtos começam a ceder no varejo neste mês. O IGP-M teve queda de 0,3%, beneficiado pela deflação de 0,79% no atacado. Mas os preços ao consumidor também colaboraram, com variação de apenas 0,08%. O item alimentação teve peso importante, com recuo de 0,47%. Para a economista Tatiana Pinheiro, do ABN AMRO, isso deixa claro que o tombo nos preços dos alimentos no atacado já chegou ao consumidor. Na primeira quadrissemana de junho do IPC da Fipe, que teve variação de 0,19%, o item subiu apenas 0,16%. Nesse cenário, os analistas consideram que também o IPCA deste mês deve capturar a trajetória de queda dos preços dos alimentos. Para Bassoli, a valorização do câmbio ajuda a explicar em parte o recuo das cotações desses produtos, já que muitos deles são influenciados pela cotação do dólar. O câmbio valorizado tem derrubado os preços industriais no atacado, mas também já surte efeito no varejo, diz Bassoli. Ele cita o caso dos bens duráveis, como automóveis e eletroeletrônicos, sensíveis ao sobe-e-desce do câmbio por terem muitos componentes cotados em dólar. Em dezembro, a alta acumulada em 12 meses por esses produtos era de 8,97%; em maio, estava em 6,94%. Junho deve ser um mês positivo em termos de inflação ao consumidor não apenas devido aos preços dos alimentos. Tatiana ressalta que se trata de um período em que não há reajustes relevantes de preços administrados. Relatório da Rosenberg & Associados lembra que "o único aumento pré-determinado conhecido até o momento é o reajuste da tarifa de ligação de telefone fixo para celular". Isso não deve impedir que o IPCA de junho registre uma variação baixa, próxima a 0,3%, prevêem os analistas da Rosenberg. Tatiana, por sua vez, diz que os remédios deixarão de pressionar o índice neste mês, depois de subir com força em maio. Bassoli vê duas grandes forças em ação contribuindo para o recuo da inflação: a valorização do câmbio e a desaceleração da atividade econômica, decorrente do aperto monetário promovido pelo BC desde setembro. Para ele, o comportamento do grupo de serviços - que responde diretamente ao balanço entre oferta e demanda e não tem influência do câmbio- mostra que o desaquecimento da economia tem colaborado para o arrefecimento das pressões inflacionárias. No IPCA, o item registrou variação de 0,36% em maio, depois de subir 0,41% em abril e 0,6% em março. Bassoli prevê uma trajetória bem mais tranqüila para o IPCA nos próximos meses. De junho a dezembro, ele espera que o indicador suba a uma média de 0,42% ao mês. Em julho, é possível que haja um repique, para a casa de 0,7% a 0,8%, já que aumentos de tarifas de telefonia e energia elétrica vão pressionar o indicador. Por tudo isso, os analistas acreditam que o Banco Central (BC) vai enfim interromper o ciclo de alta dos juros na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana. De janeiro a maio, o IPCA subiu 3,18%. Em cinco meses, o acumulado equivale a 62,4% da meta de inflação perseguida pelo BC para o ano, de 5,1%. É um sinal mais do que evidente de que ela não será cumprida. O mercado prevê um IPCA de 6,32%, acima dos 5,1%, mas abaixo do teto da meta, de 7%.