Título: China ignora competitividade do Brasil
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 13/06/2005, Brasil, p. A4

Comércio exterior Perfil de alta tecnologia não garante espaço no mercado chinês, diz estudo

Não é por falta de competitividade que as indústrias brasileiras deixam de ganhar mercado na China. As maiores e mais inovadoras empresas do Brasil já vendem seus produtos para o dragão asiático. Quase 70% das grandes exportadoras industriais do país estão embarcando contêineres para a China. Só que esse mercado - o sexto maior do mundo, com 1,3 bilhão de habitantes e crescimento anual médio de 8% - responde por apenas 4% das vendas dessas empresas para o exterior. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ligado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, demonstra que a culpa pelo fraco desempenho do Brasil não está nos altos preços ou na baixa qualidade de seu produto. Pelo contrário. As indústrias brasileiras não conseguem ganhar mercado por conta de barreiras tarifárias impostas pela China, da política de atração de investimentos do país e do planejamento estratégico das multinacionais. "É a China que não compra do Brasil", acredita Fernanda de Negri, pesquisadora do Ipea e autora do estudo. De acordo com o levantamento, o Brasil possuía uma média de 9.665 exportadoras na indústria da transformação entre 2000 e 2003. Desse total, 1.052 companhias estavam embarcando produtos para o mercado chinês. Na comparação por faturamento, as indústrias que exportavam para a China eram 10 vezes maiores que aquelas que estavam fora do mercado asiático. O gasto médio em pesquisa e desenvolvimento das empresas que vendiam para o país asiático chegava a 1,1% da receita líquida das vendas, diante de 0,68% das demais. Para Fernanda, os dados evidenciam que as empresas que exportam para a China são mais produtivas, intensivas em tecnologia e eficientes que a média das exportadoras brasileiras. O problema é que o bom perfil das companhias não se reflete no intercâmbio comercial entre os dois países. Em 1996, a indústria da transformação representava 85,9% das exportações brasileiras para a China. Em 2003, esse percentual caiu para 50,8%. Já a participação dos produtos agrícolas nos embarques do Brasil para a China saíram de 0,4% em 1996 para 30,4% em 2003. Nesse período, os embarques totais do Brasil para a China cresceram 300%, saltando de US$ 1 bilhão para US$ 4,5 bilhões. Em 2004, as exportações atingiram US$ 5,44 bilhões. Mas a tendência começa a ser revertida. De janeiro a maio deste ano, as exportações brasileiras para a China ficaram em US$ 2,03 bilhões, queda de 3% ante igual período de 2004. E se engana quem imagina que a China compra apenas produtos primários do mundo todo. Entre 1996 e 2003, as importações chinesas aumentaram 197%, de US$ 139 bilhões para US$ 413 bilhões. Os produtos de alta intensidade tecnológica responderam por 40% desse total. Esse foi também o segmento em que as importações chinesas mais cresceram no período: 350%. Já as importações dos produtos de baixa intensidade tecnológica aumentaram 183% entre 1996 e 2003, representando apenas 7% das compras externas totais da China. "O Brasil está inserido em um pequeno pedaço das exportações chinesas (produtos primários) que crescem menos que a média", afirmou Fernanda. "A indústria brasileira não tem se beneficiado do expressivo crescimento das importações chinesas", concluiu. As exportações brasileiras para a China estão na contramão. Os produtos de alta intensidade tecnológica representavam apenas 25% das exportações brasileiras para a China, apesar de representarem 40% da pauta global de exportações do Brasil. Já os produtos de baixa intensidade tecnológica, que respondem por apenas 11% das exportações totais do país, atingem 34% dos embarques para a China. O estudo feito pelo Ipea também evidencia que as mesmas empresas que vendem commodities para a China estão exportando produtos de alta e média intensidade tecnológica para os Estados Unidos, um dos mercados mais competitivos do mundo. Produtos industriais considerados commodities responderam por 28% das exportações brasileiras para a China em 2003. Os produtos de baixa intensidade tecnológica ficaram com outros 34%. Os itens de alta intensidade tecnológica somaram apenas 6% do total. A performance em outros mercados das empresas brasileiras que exportam para a China é bem diferente. Os produtos de alta intensidade tecnológica responderam por 31% das vendas dessas companhias para a América do Norte em 2003, e os de média intensidade tecnológica ficaram com 24%. Já as commodities significaram apenas 12% dos embarques e os produtos de baixa intensidade tecnológica responderam por 9%. Na avaliação de Fernanda, há várias hipóteses que podem explicar o fato de as indústrias brasileiras venderem pouco para a China, apesar de sua competitividade. A maioria dos produtos de alta intensidade tecnológica importados pelo mercado chinês é adquirida nos demais países asiáticos, que estão mais próximos geograficamente. "A China tem uma complementaridade produtiva muito grande com os demais países da Ásia", afirma a economista. As estratégias de fornecimento global das empresas multinacionais talvez sejam as grandes responsáveis pela fraca presença dos produtos industriais brasileiros na China. No setor automotivo, que responde por uma parcela expressiva das exportações nacionais, a produção brasileira é destinada a atender a América Latina e, em alguns casos, também a América do Norte. As barreiras tarifárias e os incentivos para que as empresas se instalem na China também ajudam a explicar o descompasso comercial entre os dois países. Embraer e Embraco são exemplos de empresas que optaram por produzir na própria China ao invés de abastecer aquele mercado a partir do Brasil.