Título: Em 97, denúncia de compra de voto não afetou o risco-país
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 13/06/2005, Política, p. A6
O episódio das denúncias de compra de voto para a reeleição de FHC, em maio de 1997, deixa claro como o efeito de crises políticas sobre o mercado também depende fundamentalmente das condições da economia do país e do quadro internacional. Na época, o risco-Brasil pouco oscilou, apesar da gravidade do escândalo, especialmente porque o cenário externo era bastante favorável aos mercados emergentes, ainda que se estivesse às vésperas da crise asiática. Além disso, a relação entre a dívida líquida do setor público brasileiro e o PIB era pouco superior a 30%. Hoje, está na casa de 50%, tendo superado os 60% no auge das incertezas de 2002. Como o Banco Central (BC) controlava o câmbio na época, a cotação do dólar é pouco relevante como medida da desconfiança dos investidores. A variação das reservas internacionais é um indicador mais importante, já que o BC vendia dólares quando havia pressão sobre a moeda americana. As reservas caíram de US$ 59,3 bilhões em maio de 1997 para US$ 57,6 bilhões em junho do ano, o que sugere nervosismo no mercado, mas voltaram a subir em julho, atingindo US$ 60,3 bilhões. No caso do vazamento dos gramos do BNDES, contendo diálogos entre integrantes do governo sobre a privatização do sistema Telebrás, houve turbulência no mercado. Em meados de novembro de 1998, quando estourou o caso, o risco-Brasil estava na casa dos 1.000 pontos. O indicador fechou o ano em 1.231 pontos. A questão é que não se pode atribuir toda a volatilidade ao episódio, já que o cenário não estava fácil para mercados emergentes - em agosto, a Rússia decretara moratória -, e o regime de câmbio semifixo do Brasil estava na linha de tiro dos investidores, que consideravam insustentável um déficit em conta corrente acima de 4% do PIB. Não por acaso, o Brasil teve de deixar o câmbio flutuar em janeiro. No caso Waldomiro Diniz, que surgiu em fevereiro de 2004, também houve alguma turbulência. O risco-país, que estava em 506 pontos na véspera das denúncias, fechou o mês em 579 pontos. Mas não foi apenas a notícia de que um auxiliar próximo do ministro da Casa Civil, José Dirceu, estava envolvido num caso de corrupção que provocou a deterioração dos preços: na época, os investidores aproveitaram para embolsar os ganhos que haviam obtido nos meses anteriores com ativos de países emergentes como o Brasil. Esse movimento também foi provocado pelo temor de que o Federal Reserve (Fed, o BC americano) aumentasse os juros com força. Como isso não se confirmou e a economia brasileira já estava mais sólida, principalmente no caso das contas externas, o impacto do caso Waldomiro sobre o mercado durou pouco - também pelo fato de que as denúncias não atingiram diretamente nem Dirceu nem o presidente Lula. (SL)