Título: Contas externas e fiscais atenuam a contaminação da economia pela CPI
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 13/06/2005, Política, p. A6

Do começo do Plano Real para cá, diversas crises políticas afetaram o mercado e a economia, como o vazamento das gravações do grampo do BNDES, em novembro de 1998, a turbulência causada pelo temor da eleição de Lula, ao longo de 2002, e o caso Waldomiro Diniz, em fevereiro de 2004. O impacto de cada uma delas, porém, dependeu não apenas da gravidade da situação política, mas também do saúde das contas externas e fiscais do país, assim como do cenário externo. Como hoje a economia brasileira está mais sólida e o quadro internacional é relativamente tranqüilo, o potencial de estragos da atual crise tende a ser um pouco atenuado. Analistas de consultorias de bancos afirmam, no entanto, que isso pode mudar se o caso levar a alterações significativas na política econômica, como o abandono da ortodoxia fiscal, ou se a situação se agravar a ponto de crescerem as chances de um candidato considerado populista vencer as eleições presidenciais de 2006. O maior temor, hoje, responde pelo nome de Anthony Garotinho (PMDB). O impacto da atual crise sobre a economia tem sido relativamente modesto, ainda que ninguém negue a sua gravidade. Depois da divulgação da entrevista do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) sobre a existência de um suposto esquema de pagamento de propina a parlamentares, o risco-país, termômetro da confiança dos investidores, subiu de 416 para 443 pontos na quinta-feira, caindo na sexta para 428. Enquanto isso, o dólar avançou 1,89%, para R$ 2,473, embora tenha sido negociado acima de R$ 2,50 durante a semana. Isso mostra que o mercado acusou o golpe, sim, mas o efeito não foi tão dramático. Para o economista-chefe do Pátria Banco de Negócios, Luís Fernando Lopes, um dos principais motivos para isso é que a economia brasileira está menos frágil do que em crises anteriores. O superávit comercial acumulado em 12 meses é de US$ 38 bilhões, o que garante um superávit confortável em conta corrente, lembra ele, acrescentando que o superávit primário supera os 7% do PIB nos quatro primeiros meses do ano, bem acima da meta de 4,25% do PIB para 2005. "Com isso, fica mais caro montar uma aposta muito pessimista em relação ao Brasil, comprando dólares e vendendo reais", afirma ele. O cenário externo relativamente amigável para países emergentes também ajuda, como diz o ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria Integrada. Hoje, os juros americanos estão em alta, mas sobem a uma velocidade comedida, que não é suficiente para afastar os investidores de países como o Brasil. Loyola diz que o mecanismo de contaminação da política para a economia começa pelo aumento do risco-país e a desvalorização do câmbio. Num segundo momento, se o dólar sobe muito e permanece num nível elevado por muito tempo, há pressões inflacionárias, que tenderiam a levar o Banco Central (BC) a elevar ainda mais os juros, colocando um pé no freio da atividade econômica. Esse foi o roteiro que se assistiu em 2002. A percepção de que a vitória de Lula era cada vez mais provável levou à disparada do risco-país e do dólar, devido aos temores do mercado de que houvesse mudanças significativas nos rumos da política econômica. O risco superou 2.400 pontos e o câmbio atingiu R$ 4. O resultado? Uma inflação acima de dois dígitos em 2002 (12,5%) e a elevação dos juros de 18% em outubro para 26,5% em fevereiro, o que fez a economia crescer apenas 0,5% em 2003. Mas, ainda que a crise política tenha tido um peso fundamental para explicar a deterioração do cenário econômico em 2002, os analistas lembram que outros fatores também contribuíram para a piora. O cenário externo não era dos mais tranqüilos, devido às incertezas provocada pelos escândalos corporativos nos EUA, como o da Enron, e pelo rescaldo pós-11 de setembro. Internamente, a economia não estava exatamente sólida. O país fechara o ano anterior com um déficit em conta corrente de US$ 23,2 bilhões, e uma parcela significativa da dívida interna era atrelada ao câmbio (40% em setembro de 2002). Com isso, a alta do dólar tinha um impacto fiscal forte, aumentando a dívida pública e, com isso, intensificando as dúvidas sobre a capacidade de solvência do país. Como desta vez a economia do país está mais saudável (ainda que o nível de atividade comece a patinar), seria necessária a percepção de que haverá alterações substanciais no modelo econômico para ocorrerem sobressaltos mais fortes no mercado, afirmam os analistas. Uma guinada populista do governo Lula, com o afrouxamento do esforço fiscal ou mudanças drásticas na política monetária, poderia causar esses estragos, diz o economista-chefe da MCM Consultores Associados, Celso Toledo. O outro fator de risco, na ótica dos investidores, é a possibilidade de que atual crise abra espaço para o avanço de um candidato populista. "O mercado teme o desconhecido", resume Toledo. Se o desgaste de Lula aumentar as chances de um tucano nas eleições de 2006, não haverá motivos para grandes sobressaltos, diz ele. O PSDB esteve no poder por oito anos e fez uma política das mais agradáveis aos olhos do mercado. O que poderia pressionar o risco-país e o dólar é se a atual crise elevar o cacife para as eleições de 2006 de um nome como Garotinho, crítico das políticas fiscal e monetária do governo Lula. Esses dois cenários, porém, não são tidos como os desfechos mais prováveis pelos analistas de consultorias e bancos, embora tenham entrado no radar de todos. A aposta, hoje, é de que o governo Lula deve manter as linhas mestras da política econômica. Toledo diz, por exemplo, que eventuais gastos para acomodar pressões políticas não devem ter impacto fiscal importante, ou seja, não tendem a comprometer o cumprimento da meta de superávit primário deste ano, de 4,25% do PIB. Mas há outro risco no ar associado à atual turbulência, menos perceptível no curto prazo que uma eventual pressão sobre o risco-país e o dólar, admitem os analistas. Se a crise se arrastar por muitos meses, os empresários podem adiar ou, quem sabe, até cancelar projetos de investimento. A paralisia da agenda de reformas que facilitam investimentos pode atrapalhar bastante, afirma Loyola. Num momento em que os juros altos e o dólar barato já levam o setor privado a postergar suas decisões, incertezas no cenário político turvam ainda mais o horizonte de quem quer investir. Para um governo que deseja ampliar o potencial de crescimento do país, isso seria bastante preocupante. No primeiro trimestre, o investimento caiu 3% em relação ao trimestre anterior. Foi a segunda queda seguida do indicador, que recuara 3,9% no quarto trimestre de 2004.