Título: "Esta CPI é preocupante para o governo, não para o presidente"
Autor: César Felício
Fonte: Valor Econômico, 13/06/2005, Política, p. A8
Presidente da Empresa de Turismo de Salvador (Emtursa), uma autarquia da prefeitura da capital baiana, Benito Gama está filiado ao PTB e pretende apoiar no ano que vem a candidatura ao governo estadual do petista Jaques Wagner, ministro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. No momento de votação do impeachment de Fernando Collor, contrariou a orientação do então governador baiano Antonio Carlos Magalhães, seu líder político, e votou contra o presidente. ACM irritou-se, mas Benito continuou no grupo carlista, chegou a líder do governo na Câmara no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso e foi secretário da Indústria na Bahia no estratégico momento de atração da indústria automobilística para o Estado. Pertenceu ao carlismo até 2001, quando trocou o PFL pelo PMDB no instante em que ACM se afastou do governo federal. A partir de então, Benito viu a carreira política entrar em declínio: perdeu a reeleição como deputado federal em 2002. Concorreu a prefeito de Salvador pelo PTB no ano passado e teve apenas 0,5% dos votos. Retirou, entretanto, o PTB da esfera de influência do PFL baiano. Benito diz estar preocupado com os acontecimentos em Brasília. "O partido sofre muito com isso. Maltrata muito a imagem", comenta. Sai no entanto em defesa do ex-diretor de administração dos Correios, Antonio Osório, petebista e chefe direto de Maurício Marinho, o funcionário flagrado na fita de vídeo transcrita pela revista "Veja" que deu início à crise atual. "O Osório tem um passado de seriedade", comenta. Ao Valor, concedeu a seguinte entrevista: Valor: O sr. disse, no final da CPI do caso Collor: "Fizemos fogo para assar um leitão e botamos fogo na casa inteira". Corre-se o mesmo risco agora? Benito Gama: Não é o mesmo caso. A CPI do caso Collor demorou uns dois meses para começar a achar provas. Este momento só veio quando apareceu o motorista Eriberto (Francisco Eriberto França, que atendia à secretária particular do presidente e apanhava cheques no escritório de Paulo César Farias), e que na verdade era um depoimento que apontava um caminho concreto. Agora esta CPI já parte de algumas evidências documentais. Ela começa por onde a outra terminou. A casa já pegou fogo. Valor: Então as conseqüências poderão ser graves para o presidente? Benito: É preocupante para o governo, não para o Lula. Ao contrário do que muita gente fala, a gente sabe sim como começa e como termina uma CPI. Esta CPI é uma bomba com muito estilhaço, mas acho que preserva o Lula. Valor: No caso de Collor, ele optou por não interferir nos trabalhos da CPI. Poderia tê-lo feito e neste caso se salvaria? Benito: O Collor confiava muito nas pessoas que o cercavam e que diziam que qualquer presidente, em qualquer circunstância, teria sempre um terço do Congresso para barrar um impeachment. No começo daquele ano (1992) ele fez uma reforma ministerial, um acordo político para ganhar maioria, mas não segurou os partidos. E assuntos de corrupção são recorrentes. Eles são enterrados em um momento, mas depois sempre voltam. Valor: De que maneira uma CPI não pode se tornar um instrumento de chantagem de partidos e parlamentares contra o governo? Benito: A CPI, quando não é contaminada por estes fatores, torna-se um instrumento sério. E para isso depende muito de quem está lá. Naquela CPI, éramos eu como presidente, o senador Maurício Corrêa, depois ministro do STF, como vice, o Amir Lando como relator, o Mário Covas como um dos integrantes. Não havia internet e eu me lembro do Covas aparecendo de surpresa em postos de gasolina para checar notas fiscais. Todo mundo com cuidado para frear os que queriam contaminar a investigação com o processo eleitoral. De início havia muito ceticismo em relação à CPI, e por isso tivemos uma preocupação geral em imprimir uma linha de seriedade. (CF)