Título: Primeira comissão de inquérito prendeu Samuel Wainer
Autor: César Felício
Fonte: Valor Econômico, 13/06/2005, Política, p. A8

A referência do ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, à crise do segundo mandato de Getúlio Vargas guarda pelo menos um paralelo com a realidade atual - foi neste governo em que surgiram as CPIs. O instituto foi regulamentado pela Lei 1.579, de 18 de março de 1952. A inspiração vinha dos Estados Unidos: estavam no auge as investigações promovidas pelo senador Joseph McCarthy, contra supostos infiltrados comunistas na administração americana. Em junho de 1953, as CPIs estrearam na política nacional, com a investigação sobre o patrocínio oficial ao jornal "Última Hora", de Samuel Wainer. Conforme o próprio jornalista admite em seu livro de memórias, "Minha Razão de Viver", a criação do jornal foi idealizada por Getúlio e contou com o apoio direto do Banco do Brasil. O projeto ambicioso visava montar uma rede nacional de jornais governistas, para competir com os Diários Associados de Assis Chateaubriand, que reagiu, denunciando a ligação entre Wainer e o BB. Foi então que o jornalista teve uma idéia desastrosa: sugeriu a Getúlio patrocinar a instalação de uma CPI que o investigasse. "Como o governo tinha maioria no Legislativo, raciocinei, poderíamos neutralizar as espertezas da oposição (...)Foi meu grande erro (...) deveria ter percebido que a maioria governista no Congresso era fictícia - muitos deputados não hesitariam em atraiçoar o presidente (...) nenhum de nós anteviu que estávamos oferecendo ao inimigo justamente a arma que necessitava (...) a maioria dos integrantes da CPI fora pessoalmente indicada por Getúlio, mas logo ficou claro que poucos dentre eles mereciam confiança. Quase todos passaram a exigir vantagens - nomeações, favores - em troca do apoio a mim", escreveu Wainer. Dos cinco membros da CPI, três eram governistas: Ulysses Guimarães (PSD-SP), Frota Aguiar (PTB-CE) e Castilho Cabral (PSP-SP). Frota Aguiar rompeu com o governo e Ulysses se desinteressou dos trabalhos, segundo afirma o Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, da FGV-CPDOC, no verbete "Última Hora". O resultado foi a oposição - representada por Aliomar Baleeiro (UDN-BA) e Guilherme Machado (UDN-MG) procurar envolver Getúlio e sua família no escândalo, dando base para um pedido de impeachment. Wainer foi preso durante seu depoimento, ao se negar a responder quem eram seus financiadores. O relatório final, de novembro daquele ano, incriminava o governo. No decorrer do ano, contudo, Getúlio fez uma ampla reforma ministerial e recompôs a maioria no Congresso, rejeitando em junho do ano seguinte o impeachment por 136 votos a 35. Wainer deixou de freqüentar o Catete e o novo presidente do BB mandou executar a dívida. A crise provocada pela CPI estava debelada, até o atentado contra Carlos Lacerda na rua Toneleros reacender a fogueira. (CF)