Título: Depois de nove altas da Selic, Copom vai encerrar aperto, prevê mercado
Autor: Luiz Sérgio Guimarães e Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 13/06/2005, Finanças, p. C2

Após nove altas seguidas do juro básico, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central irá manter a taxa Selic em 19,75% em sua reunião mensal de dois dias que se encerra na quarta-feira. O fim do aperto monetário iniciado em setembro de 2004 - que elevou o juro de 16% para 19,75% - é uma previsão consensual do mercado. Os 16 analistas consultados sexta-feira pelo Valor foram unânimes em assegurar que o BC não irá fazer a décima elevação. O economista-chefe do ABN AMRO Real, Mário Mesquita, diz que carece de fundamentação o receio de que o Copom venha a decidir em função da crise política. Não tem amparo técnico o argumento de que subirá o juro como efeito-demonstração, para reassegurar o rigor da ortodoxia e rechaçar eventuais pressões. "O fator-demonstração consta da literatura especializada, mas os BCs não gostam de recorrer a ele", diz Mesquita. Na outra ponta, o de manter o juro apenas para criar um ambiente mais favorável à dispersão da turbulência, também não procede. "Há fortes razões técnicas para o BC estabilizar o juro. Não precisa de nenhum outro", explica. Se o Copom subir a Selic para 20% não será por efeito da crise política, acredita o economista-chefe do WestLB, Adauto Lima. O BC usará critérios exclusivamente técnicos para escolher o rumo da política monetária. É claro que o ruído político será considerado na reunião. Serão avaliados o impacto da turbulência sobre a volatilidade dos mercados e sobre a taxa de câmbio. "Apesar de tudo o que aconteceu, o dólar não passou de R$ 2,50, um sinal de que a economia está ancorada em fundamentos sólidos", diz Lima. O vice-presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi), José Arthur Assunção, concorda com Mesquita e Lima: a crise política não é motivo para o Copom elevar o juro. A série de altas deve ser interrompida, na sua opinião, porque o PIB do primeiro trimestre mostrou que o aperto monetário já deu resultados. "O forte ajuste da taxa Selic está retraindo a demanda, como queria o BC. A inflação já dá sinais concretos de arrefecimento", diz. O economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa, acredita que a crise política não terá nenhuma influência sobre o Copom. "O BC está blindado contra pressões", assegura ele. Seria muito ruim se o mercado percebesse a existência de algum tipo de fator extratécnico na decisão de interromper o aperto. O requisito da transparência técnica total é fundamental para a preservação da credibilidade do BC. E, atualmente, todos os fatores indicam a necessidade de uma pausa no movimento de alta da taxa básica. Para Rosa, cujo cenário básico prevê início de um movimento de queda do juro em outubro, com a Selic encerrando o ano a 18,25%, o momento da baixa poderia ser até antecipado para agosto ou setembro se as condições atuais se mantiverem. As pressões que haviam sofre os preços livres cederam e não há sinais de que a inflação futura sofrerá alguma contaminada. Embora o economista-chefe da ABN Asset, Hugo Penteado, preveja a estabilidade da Selic, considera possível a continuidade do ciclo de altas porque o BC diverge do mercado em relação à atividade econômica. Para Penteado, está difícil antecipar o resultado desta reunião do Copom por dois motivos: há pontos contrários e favoráveis ao aumento de juros; e o risco de inércia não é uma forma natural de se fazer política monetária. "A própria teoria de inflação inercial prevê que aumentos de juros são ineficazes para combater esse tipo de inflação", observa ele. Os argumentos em favor da manutenção da taxa básica são a desaceleração do crescimento econômico, a queda na expectativa de inflação do mercado, o arrefecimento da inflação corrente, o modelo matemático do BC já apontaria IPCA 12 meses à frente abaixo da meta e a valorização cambial e queda do preço das commodities nos meses recentes. Esse movimento trouxe o IPA para patamares negativos. O declínio melhora a perspectiva para os preços livres do IPCA de médio prazo. As justificativas para a continuidade do aperto são a permanência dos núcleos do IPCA em patamares elevados, com risco de propagação da inflação corrente para a futura, o otimismo do BC com a atividade econômica e a influência negativa sobre a taxa de câmbio exercida pelo risco político. Os analistas da corretora Convenção também apostam com firmeza na manutenção da Selic. "O Copom não precisa e não aumentará a taxa de juros na próxima reunião", afirmam eles, lembrando que abundam motivos para o BC não mexer na Selic: desaceleração econômica, deflação no atacado espalhando-se também nos preços industriais, câmbio apreciado (ainda que volátil), "expectativas comportadas e um processo seqüencial de desinflação que o IPCA de maio chancela". Segundo eles, os núcleos dos IPCs ainda causam desconforto, é verdade, mas há fatores suficientes para o BC manter os juros. Para os economistas da LCA Consultores, os índices de preços de maio e as primeiras parciais de junho - como as primeiras prévias do IGP-M e do IPC da Fipe - confirmam a análise de que a inflação doméstica encontra-se em desaceleração consistente. "Isso reafirma nossa expectativa de que o Banco Central interromperá, neste mês, o ciclo de alta da Selic". O IGP-DI de maio, por exemplo, mostrou queda dos preços no atacado, de 0,98%, tanto no caso dos agrícolas quanto no dos industriais. Isso é um sinal, já capturado pelas primeiras prévias dos índices de junho, de que o comportamento no atacado vai chegar ao varejo.