Título: Renda segura desempenho do comércio em abril
Autor: Sergio Lamucci e Raquel Salgado
Fonte: Valor Econômico, 15/06/2005, Brasil, p. A3
O volume de vendas do comércio varejista desacelerou em abril e caiu 0,23% na comparação com março, segundo dados com ajuste sazonal. Em relação ao mesmo mês do ano passado, o volume avançou 3,4%, bem abaixo dos 7,72% apurados em março. Ao mesmo tempo, a receita nominal teve desempenho superior ao volume e ficou 0,76% maior do que em março, além de ter subido mais de 11,8% frente a abril de 2004. Em abril, apenas os setores de duráveis (móveis e eletrodomésticos) e semi-duráveis (têxteis, calçados e vestuário) tiveram desempenho positivo sobre março: com altas de 1,06% e 13,72%, respectivamente. Para Nilo Macedo, coordenador da pesquisa de comércio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esses ramos ainda refletem a expansão do crédito ao consumidor. O resultado vigoroso do setor de semi-duráveis é atribuído à mudança de estação. "Houve condições mais favoráveis de compra proporcionadas por promoções e queima de estoque da coleção de verão", diz. Em contrapartida, os segmentos mais dependentes da renda, como o grupo que reúne hipermercados, supermercados, alimentos, bebidas e fumo, sofreu retração de 0,47% nas vendas, em volume, enquanto que o setor de combustíveis e lubrificantes viu o desempenho recuar 1,14%, sempre na comparação com março, com ajuste. Na avaliação do economista Fernando Montero, da Corretora Convenção, a queda nesses ramos pode ser atribuída a uma inflação mais alta nesse começo de ano, que corrói a renda do consumidor. Na pesquisa do comércio varejista ampliado, a venda de veículos e motos cedeu 1,21%, em volume, em abril sobre março. O analista do IBGE acredita numa acomodação do desempenho do setor. "Já foram vendidas muitas unidades. São bens de alto valor unitário, que não são fáceis de serem comprados, pois mesmo que adquiridos a prazo, as prestações são altas", afirma. Mas o setor cresceu 5,57% na comparação com abril de 2004. Em maio com a perspectiva de que os preços agrícolas cedam também no varejo e pressionem menos os consumidores, mais um mercado de trabalho que continua aquecido e a injeção do salário mínimo, Montero espera que o comércio volte a crescer. A LCA Consultores descarta que a desaceleração do comércio seja duradoura. Para maio, a expectativa é de alta de 0,8% sobre abril, segundo dados com ajuste sazonal, e de 3,1% sobre igual mês do ano passado. A disparidade entre volume e receita por ser explicada por duas hipóteses. Mesmo com a retração das vendas físicas, a receita pode ter aumentado devido a um movimento de reajuste de preços ao consumidor. Para os economistas do Bradesco, essa análise é coerente com a alta de 0,76% nos preços livre medidos pelo Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA). Por outro lado, pode ter ocorrido também uma recomposição das vendas do varejo em bens de maior valor unitário, o que inflou a receita. Isso pode ser explicado pelo fato de que as categorias com melhor desempenho foram a de móveis e eletrodomésticos e vestuário e calçados, cujos produtos são mais caros do que as categorias que tiveram retração como hiper e supermercados e combustíveis.