Título: Exportação atenua formação de estoques
Autor: Sergio Lamucci e Raquel Salgado
Fonte: Valor Econômico, 15/06/2005, Brasil, p. A3
Conjuntura Produção de bens de consumo cresceu a um ritmo superior ao das vendas do varejo em 2005
O desempenho da indústria e do varejo de janeiro a abril indica a formação de estoques pelas empresas no período, mas não em níveis muito preocupantes, segundo analistas. Embora a produção de bens de consumo tenha crescido a um ritmo mais forte que o das vendas no comércio, a avaliação é de que a indústria tem driblado parte do problema principalmente por meio do aumento das exportações. Nos quatro primeiros meses do ano, a produção de bens de consumo teve expansão de 2,8% em relação ao quadrimestre anterior, na série com ajuste sazonal, bem acima do que o 1,1% registrado pelas vendas no varejo no mesmo período, de acordo com a MB Associados. "A produção da indústria cresceu mais que o dobro das vendas no comércio, o que sugere a formação de estoques", afirma Sérgio Vale, economista da MB, enfatizando que as exportações atenuam o processo. A Rosenberg & Associados, por sua vez, estima a evolução de estoques de outro modo, cruzando os números da produção da indústria de transformação, do IBGE, com as vendas reais na indústria, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), como explica o economista Johan Soza. De janeiro a abril, a produção cresceu 0,2% em relação aos quatro meses anteriores, em termos dessazonalizados, enquanto as vendas industriais caíram 1,4% no mesmo período. Soza diz que os números mostram o aumento de estoques em relação aos quatro últimos meses de 2004. Ele acrescenta, porém, que a partir de março já houve uma reversão dessa tendência, como indica a média móvel de três meses do nível de estoque da indústria de transformação. Em abril, a produção desse segmento da indústria caiu 0,5% em relação a março, enquanto as vendas reais cresceram 0,1%. A evolução da produção de bens de consumo e das vendas no varejo nos meses de março e abril também sugere uma possível diminuição de estoques, já que os dois indicadores começaram a andar num ritmo mais próximo. Além desses números, outro fator leva Soza a avaliar que os estoques não estão em níveis muito preocupantes: o desempenho das exportações. Para analistas como Soza e Vale, as empresas têm aproveitado as vendas externas também para desovar parte de uma eventual produção excedente. A Rosenberg estima que, dos 4,3% de crescimento registrados pela indústria de transformação no primeiro quadrimestre ante igual período de 2004, 2,3 pontos percentuais vieram da demanda externa. Números da Fundação Estudos de Comércio Exterior (Funcex) deixam claro o excepcional desempenho das exportações de bens duráveis (como automóveis e eletroeletrônicos) neste ano. De janeiro a abril, o volume exportado cresceu nada menos de 23,2% em relação a janeiro a abril do ano passado. "Se não fossem as exportações, os estoques estariam num nível bem mais elevado", afirma Soza. Para a economista Giovanna Rocca, do Unibanco, os dados da CNI mostraram um acúmulo de estoques desde o final do ano passado, mas, em abril, o quadro já deu sinais de reversão. A partir de maio, a indústria deve voltar a produzir mais, como mostram dados antecedentes de papel e papelão e fluxo pedagiado de veículos, que subiu 4,6%, na série com ajuste sazonal. Pelo lado da demanda, o emprego industrial deve ter um bom desempenho, o que trará mais força à renda, afirma ela. Para os analistas do Credit Suisse First Boston (CSFB), os estoques não estão em níveis dos mais elevados, principalmente porque as vendas de bens duráveis e semi duráveis (como vestuário e calçados) seguem forte. Em abril, por exemplo, a venda de tecidos, vestuário e calçados (semi duráveis) cresceu 13,7% em relação a março. Um dos segmentos com pior desempenho foi o de bens não duráveis (hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo), que, pelas suas próprias características, não costumam ser estocados por muito tempo.