Título: Secretária relata contatos de Valério com PT
Autor: Ivana Moreira e César Felício
Fonte: Valor Econômico, 15/06/2005, Política, p. A8

O PT poderá ter contra si evidências documentais que ligam os dirigentes do partido Delúbio Soares e Silvio Pereira ao empresário Marcos Valério de Souza, dono das agências de publicidade DNA e SMP&B, em Belo Horizonte. Em entrevista divulgada ontem pela revista "Istoé Dinheiro", a secretária Karina Somaggio, que trabalhou para o empresário entre abril de 2003 e janeiro de 2004, afirma ter guardado uma agenda que comprova contatos regulares entre seu ex-patrão e os petistas Delúbio Soares e Sílvio Pereira. Com o primeiro, a freqüência era semanal. Apesar de administrar duas prósperas agências, Valério não é do ramo publicitário. Entrou neste mercado em 1996, ao associar-se ao hoje vice-governador de Minas Gerais e presidente da CNT, Clésio Andrade (PL), para comprar as empresas. Dois anos depois, Clésio se afastou da sociedade para disputar eleições. Apesar de ter capitalizado a sociedade, o hoje vice mineiro teve que ir à Justiça contra Valério para receber sua parte. A entrevista à revista "Istoé Dinheiro" foi feita pelo editor de economia da revista, Leonardo Attuch, citado pela revista "Veja" como sendo alvo de investigações da Polícia Federal em razão de supostas ligações com o empresário Daniel Dantas, do grupo Opportunity. A secretária citou três eventos: um encontro na sede do PT em Brasília entre o empresário, o presidente do Banco Rural, José Dumont, já falecido, e Delúbio; uma reunião entre Valério e Silvio Pereira no Maksoud Plaza, hotel de São Paulo e outra reunião entre os dois e o então presidente da Câmara, João Paulo Cunha. Karina diz ter feito pagamentos para um tucano, o ex-ministro das Comunicações Pimenta da Veiga. Afirma que os vínculos do ex-patrão com o meio político vinham de longe disse ter presenciado retirada de dinheiro por um irmão do então ministro dos Transportes, Anderson Adauto. Segundo a revista, Karina deu duas entrevistas. Uma, não publicada, em setembro de 2004, após a publicação de uma reportagem sobre Delúbio. Com as denúncias de Jefferson, a secretária voltou a ser procurada e diz que decidiu falar contra o patrão porque este a processa por chantagem.Em sua edição on-line, a revista "Veja" deixou ontem disponível por algumas horas um texto em que afirma que o processo contra Karina corre na 6ª Vara Criminal de Belo Horizonte. De acordo com a revista, uma testemunha de acusação, sua ex-colega Adriana Fantini, Karina teria mencionado que um jornalista lhe oferecera dinheiro em troca de informações. Ao procurar Clésio Andrade há dez anos para propor sociedade nas agências, Valério já mencionava ligações políticas. No caso, com o ex-presidente do Banco Econômico e ex-ministro Ângelo Calmon de Sá. Segundo Andrade contou ontem ao Valor, Valério ingressou na sociedade sem aportar recursos. Andrade deixou as agências em 1998, ano em que disputou o posto de vice na chapa de Eduardo Azeredo (PSDB), derrotada por Itamar Franco (PMDB) e a parceria terminou mal: Clésio Andrade conta que, ao romper a sociedade, teve dificuldade para receber a parte que lhe cabia. Precisou mover uma ação na Justiça e só em 2001, num acordo entre advogados, conseguiu receber R$ 1,5 milhão pela sua parte na SMP&B. Outra empresa mineira -- o Banco Rural -- foi citada ontem no depoimento do deputado Roberto Jefferson (PTB) sobre o esquema do mensalão. Segundo ele, o dinheiro chegava ao Congresso com o carimbo do Rural e do Banco do Brasil. A direção do banco, que já esteve envolvido em denúncias durante a CPI do Banestado, distribuiu nota para negar envolvimento com esquemas ilícitos. "O destino de eventuais saques em dinheiro, efetuados por clientes do Banco Rural, não está sob o controle da instituição financeira", diz a nota. "É praxe no mercado financeiro que saques efetuados por clientes em valores iguais ou superiores a dez mil reais sejam entregues em pacotes de notas aglutinadas, conferidas e cintadas com papel identificador da instituição financeira. "A SMP&B é responsável pela publicidade e propaganda do banco há 10 anos. O banco confirmou as relações com a agência na nota distribuída ontem.