Título: Presidente da Roche critica política para medicamentos
Autor: Chico Santos
Fonte: Valor Econômico, 21/10/2004, Empresas, p. B-7

O laboratório suíço Roche inaugurou ontem a ampliação e a modernização da sua fábrica de medicamentos localizada em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, um investimento de US$ 70 milhões. Foi feito especialmente de olho no mercado externo, inclusive a União Européia, para onde a empresa espera exportar remédio fabricado no Brasil a partir de 2006. Na solenidade de inauguração, na presença do ministro da Saúde, Humberto Costa, o presidente mundial da Roche, Franz Humer, reclamou da política brasileira de patentes e do controle de preços dos produtos farmacêuticos. Humer explicou que são necessários 10 anos e investimentos de US$ 800 milhões para desenvolver um novo medicamento. "Se não houver proteção à propriedade intelectual haverá menos pesquisas para o desenvolvimento de novos medicamentos", disse, sutilmente, Humer. Ele afirmou também ter dificuldade para entender "algumas coisas como controle de preços". O ministro da Saúde disse que não entendeu as palavras de Humer como críticas. Na área de preços, Costa afirmou que o Brasil está fazendo o que todos os países do mundo fazem. "Sabemos que este é um mercado imperfeito e, como tal, é preciso que haja uma intervenção forte do Estado no sentido de gerar condições mínimas de concorrência e de defesa do consumidor". Sobre propriedade intelectual, o ministro disse que o Brasil "tem lançado mão das prerrogativas definidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC)", com o objetivo de beneficiar a população do país. Mais tarde, em entrevista, o presidente da Roche Brasil, Ernest Egli, voltou à carga, generalizando para os países da América Latina: "Os governos (latino-americanos) vão ter de tomar uma decisão: se serão países de genéricos ou de alta inovação. Se eles não quiserem ser só de genéricos, terão de criar condições para o funcionamento dessa indústria inovadora", disse. A matriz da Roche em Basiléia, na Suíça, escolheu o medicamento Marcumar, um anticoagulante para problemas cardíacos, como o primeiro produto da sua linha a ser produzido mundialmente no Brasil. A expectativa da empresa é que o produto esteja sendo exportado para a Europa a partir do segundo semestre de 2006, após a fábrica brasileira obter a aprovação dos órgãos de controle de fármacos da UE. Por enquanto, as exportações do laboratório a partir do Brasil são destinadas à América Latina, devendo alcançar US$ 35 milhões neste ano. A empresa pretende que nos próximos anos suas exportações a partir do Brasil cresçam a uma taxa de 8% a 10% ao ano. A Roche está concluindo a venda da sua fábrica de remédios vendidos sem receita, em São Paulo, para a Bayer, devendo ficar apenas com a fábrica do Rio. Nos últimos dez anos, o grupo reduziu de 30 para 16 o seu número de fábricas no mundo. No ano passado a Roche faturou R$ 1,4 bilhão no Brasil, sendo R$ 200 milhões na divisão de diagnóstico.