Título: Gravação envolve mídia no caso Schin
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 17/06/2005, Brasil, p. A2

Gravações telefônicas feitas pela Polícia Federal na Operação Cevada, que prendeu 68 pessoas ligadas à Schincariol por suposto esquema de sonegação, sugerem que a empresa teria negociado pagamentos a alguns órgãos de imprensa como forma de "blindar" a cervejaria. Seria uma maneira de facilitar a publicação de matérias favoráveis à empresa e evitar reportagens negativas. As negociações teriam sido feitas pelo publicitário Luiz Lara, da agência Lew,Lara, que atende as contas de parte dos produtos da Schin, entre eles cerveja Primus e refrigerantes. Em trechos de uma conversa com Adriano Schincariol, diretor-superintendente da Schin (ver ao lado), Lara afirma que a revista "Isto É" estaria com problemas de caixa e que se a empresa desse dinheiro a Domingos Alzugaray, diretor da Editora Três, que edita a revista, faria o que Adriano quisesse, inclusive a publicação de "uma capa da Dinheiro sobre a pauta fiscal". A conversa ocorreu em 17 de dezembro e depois a revista publicou uma reportagem sobre o assunto. Em 23 de fevereiro, a "IstoÉ Dinheiro" saiu com reportagem de capa com o título "A virada da Schin". Procurado ontem, Domingo Alzugaray, informou, em nota, que não conhece o teor da fita da Polícia Federal e salientou, "enfaticamente", que "as capas e o texto editorial das publicações da Três não estão à venda". "A Schincariol anuncia nas nossas revistas assim como em todos os grandes veículos de comunicação do país." O publicitário Luiz Lara confirmou a conversa com Schincariol. "Me excedi de forma inadvertida. Tinha conhecimento de que estava sendo trabalhada uma pauta sobre a questão fiscal e fiz mau uso da palavra. Peço desculpas à Editora Três e aos demais veículos de imprensa", afirmou Lara. Ele salientou que não houve compra de capa ou de matérias e ressaltou que outras publicações fizeram reportagens sobre a questão fiscal envolvendo a indústria de bebidas. As reportagens foram baseadas em estudo da Trevisan que mostra que marcas líderes de cerveja chegam a pagar até oito pontos percentuais a menos de imposto que as demais. A distorção, segundo a Trevisan, ocorre porque o cálculo do IPI é feito sobre o volume de cerveja vendido, sem levar em conta o preço do produto. Luiz Lara confirmou também que a Schincariol fechou em dezembro um pacote publicitário com a Três para 2005 no valor total líquido de R$ 500 mil, o que dá à cervejaria o direito de usar 29 páginas publicitárias e 12 de bonificação. Houve um desconto de 20% por conta do pagamento antecipado. "É uma forma de usar o orçamento de um ano para a publicidade do ano seguinte", explicou. No mesmo diálogo com Adriano Schincariol, Lara fala também em "blindar" a "Época", publicada pela Editora Globo, e comenta reportagem feita pela revista sobre o mesmo estudo da Trevisan. O diretor de redação da "Época", Aluizio Falcão, negou peremptoriamente que a revista negocie reportagens. "O caso parece ser de um publicitário que quer crescer em cima de seu cliente." A "Época" publicou duas reportagens sobre a Schin: em dezembro de 2003, citando que a briga entre a cervejaria e a Ambev havia chegado à CPI da Pirataria, e em dezembro de 2004, que trata do estudo da Trevisan. A Schin é anunciante da Editora Globo. No ano passado, gastou R$ 1,2 milhão em publicidade na editora. Neste ano, a verba é de R$ 500 mil, destinada à revista "Quem".