Título: Congresso divide-se sobre demissão
Autor: Cristiano Romero
Fonte: Valor Econômico, 17/06/2005, Política, p. A8
A oposição manifestou-se com cautela sobre a queda do ministro mais forte do governo, no rastro da crise. "O governo tentou livrar as pressões da opinião pública sobre si, mas não vai conseguir fazer com que paremos de apurar as denúncias contra José Dirceu e contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva", disse José Carlos Aleluia (PFL-BA), líder da minoria na Câmara. "Foi uma decisão que já devia ter sido tomada no outro escândalo, um ministro não pode ficar no cargo sob suspeita e acredito que a reforma não vai parar por aí", afirmou o líder do PSDB na Câmara, Alberto Goldman (SP). Entre os líderes governistas, havia ainda perplexidade sobre como será a partir de agora a atuação na Câmara de José Dirceu. O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), considerou um "gesto de humildade e grandeza política" a decisão do demissionário ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, de se afastar do cargo e retornar à Câmara para exercer o mandato. "Ao tomar essa medida, ajuda a preservar o governo e o partido", acrescentou. Mercadante esteve ontem com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com Dirceu, após o ex-ministro ter oficializado a decisão de deixar o cargo. Dirceu já avisou aos colegas do Congresso que não quer e não assumirá nenhuma liderança e nenhum posto de destaque. Vai se dedicar exclusivamente à sua defesa, seja em Comissões Parlamentares de Inquérito, seja no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, caso enfrente um processo de cassação de mandato. "Ele vem preparado para fazer o debate em todas as instâncias em que for necessário", disse Mercadante. O líder do governo comparou a decisão de José Dirceu à do ex-ministro Henrique Hargreaves, que no governo Itamar Franco foi alvo de denúncias de corrupção, licenciou-se do cargo por oito meses e só voltou depois que não havia nenhuma prova contra ele. Para o líder do governo, a opção feita por José Dirceu lhe dá a melhor possibilidade de defesa. Mercadante reconheceu que, por sua personalidade forte, Dirceu é um homem polêmico, e que sua volta poderá desencadear reações negativas no Congresso. "Ele resgatará sua história política e sua honra", disse. "Foi, antes de tudo, uma atitude de desapego e de despojamento de José Dirceu. Ele fortalecerá a ação de governo na Câmara pela liderança que representa. O ministro pensou sobretudo no PT. Seu afastamento é emblemático", afirmou o líder do PT no Senado, Delcídio Amaral (MS). O ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), avaliou que a partir de agora, José Dirceu vai "lutar na arena correta" para defender o governo e o Partido dos Trabalhadores. "É melhor ele estar no Congresso porque não terá o ônus de cargo de ministro e poderá falar o que quiser para defender o governo e o PT". O deputado Professor Luizinho (PT-SP), disse que Dirceu vai ajudar o presidente do PT, José Genoino, na direção do PT, na militância e organização do partido: "O ministro quer ter a liberdade de falar fora do governo para não causar nenhum problema para o Executivo". "Essa é uma boa reforma, será um reforço aqui no Congresso e como ele tem experiência no governo vão atuar bem por aqui", afirmou o líder do PMDB no Senado, Ney Suassuna. "Este é apenas o primeiro passo dado pelo presidente em reação à tentativa da oposição de desestabilizar o governo", disse Albuquerque.