Título: "Planalto sai do centro das investigações"
Autor: Cristiano Romero
Fonte: Valor Econômico, 17/06/2005, Política, p. A8
O pedido de demissão do ministro José Dirceu, da Casa Civil, é uma tentativa de retirar o Planalto do centro das investigações. "Agora, não se trata mais investigar um ministro e sim um ex-ministro, o que tem uma conotação simbólica muito grande. Tira o centro do poder do foco", avalia o cientista político Marcus Figueiredo, do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj). Figueiredo diz que, afastando as investigações de dentro do palácio do Planalto, aumenta o grau de liberdade da CPI: "É sempre constrangedor para qualquer CPI, controlada pelos partidos do governo ou da oposição, convocar o governo para depor", frisa. O cientista político Jairo Nicolau, do Iuperj, afirma que, com o afastamento do ministro, mesmo que apareçam novas denúncias no fim de semana, "o governo vira a semana mostrando capacidade de reação, que envolveu o presidente, mexendo no ministério, fortalecendo o partido na Câmara, voltando à coordenação política, o que havia se afastado", diz. "Há a expectativa que as denúncias envolvam a base parlamentar e as franjas do PT. O PT já se desgastou, pode se desgastar mais ou se recuperar. O PT e o governo também. Mas o que estava causando espécie não é a crise apenas mas a incapacidade do governo retornar ao jogo político no legislativo", frisa. Jairo Nicolau avalia que nos últimos meses, o governo Lula parecia acuado politicamente, "perdendo votações, esfarelando as bases, vendo a ala esquerda cada dia mais vitalizada, vendo quadros históricos, como José Genoino sem capacidade política e todo dia tendo que se defender. Um partido totalmente na defensiva". Nicolau defende que Sílvio Pereira e Delúbio Soares também deveriam se afastar. A saída de Dirceu muda a fisionomia do governo, já que ele vinha sendo a "alma do Planalto, responsável por grande parte das alianças costuradas com o PT, ao longo dos últimos anos", diz, por sua vez, da cientista política, Lucia Hippolito: "Este governo foi montado à imagem e semelhança de Dirceu. A partir de agora tudo será diferente. Quero ver como o governo vai se recompor". O principal erro de estratégia do governo Lula, segundo ela, é "teimar em manter a Casa Civil como pasta de articulação política": "Levar a articulação política para dentro do Palácio do Planalto foi um equívoco. A Casa Civil está na ante-sala do presidente da República. Qualquer problema acaba por respingar no presidente. Antes da ditadura, política se fazia no Ministério da Justiça", lembrou a cientista política.