Título: Saída de Dirceu encerra hegemonia do PT
Autor: Cristiano Romero
Fonte: Valor Econômico, 17/06/2005, Política, p. A8

Crise Demissão inicia reforma ministerial que deverá reduzir espaço do PT e diminuir o número de pastas

Fragilizado pelas denúncias de corrupção contra a cúpula do PT e contra a sua própria atuação no comando político do governo, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, pediu ontem demissão do cargo. Símbolo do PT e do governo, Dirceu reassumirá, na quarta-feira, o mandato de deputado federal por São Paulo, para defender a si próprio, o PT e a gestão Lula das acusações de compra de votos, feitas nos últimos dias pelo presidente nacional do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ). A demissão de Dirceu representa uma mudança radical e marca a primeira grande separação entre a administração Lula e o PT, o partido do presidente da República. Motivada pela segunda grande crise política enfrentada por esta gestão - a primeira aconteceu em fevereiro de 2004, com o Caso Waldomiro Diniz, e também teve Dirceu como pivô -, a saída do principal dirigente do PT forçará a reorganização do governo Lula e de seu projeto administrativo. A demissão de Dirceu dá início ainda à reforma ministerial que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende anunciar na terça-feira. Prestigiado por cerca de 50 funcionários da Casa Civil e acompanhado por 18 ministros e por pelo menos uma dezena de parlamentares petistas, Dirceu fez, no Salão Leste do Palácio do Planalto, um discurso dramático. Com os olhos marejados, avisou que, mesmo deixando o cargo de ministro, continuará governando o país. "Todos aqui sabem que sempre sonhei em governar o Brasil ao lado do presidente Lula, e vou continuar governando o Brasil como deputado e como dirigente do PT. Não me considero fora do governo", disse Dirceu, cuja demissão só será publicada no Diário Oficial na próxima terça-feira. "O governo do presidente Lula é a minha paixão, a minha vida e, ao sair, deixo aqui parte do meu coração. Mas não deixo a minha alma, ela vai comigo para a luta. Eu sei lutar na planície e no Planalto, e tenho humildade para voltar para meu partido como militante, para voltar para a Câmara como deputado." O discurso se assemelhou a um grito de guerra. "A luta continua", declarou o ministro no discurso e na carta de demissão enviada ao presidente. Sustentando a tese corrente no governo de que as denúncias de Jefferson são tentativas de golpe branco contra o governo Lula, Dirceu disse que vai percorrer o país para combater aqueles que "querem interromper o processo político democrático e desestabilizar o governo do presidente Lula". O ministro assegurou que as denúncias contra ele, o PT e o governo são "infundadas". "Na Câmara, vou poder esclarecer ao país, à opinião pública, os temas que hoje estão em debate na sociedade, tanto com relação às profundas transformações econômicas, sociais e políticas que estamos fazendo sob a liderança do presidente Lula, como das denúncias infundadas contra a minha pessoa, o meu partido e o meu governo", afirmou. Num tom eminentemente político, o ministro disse que é inocente. "Não me envergonho de nada que fiz no governo do presidente Lula. Tenho as mãos limpas, o coração sem amargura e a mente sempre colocada naquilo por que sempre lutei, que é pelo Brasil, pelo povo brasileiro", declarou, citando antes seus familiares, entre eles, a mãe, que vive em sua cidade natal, Passa Quatro MG), e que, segundo ele, está "muito preocupada" com a situação vivida por ele. "Saio de cabeça erguida do ministério. José Dirceu elogiou a política econômica conduzida por seu adversário dentro do governo, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. "Nosso governo tem um programa econômico que está, neste momento, tendo sucesso, e nós precisamos apoiá-lo e sustentá-lo, e o nosso governo, o nosso partido e eu temos um patrimônio ético, temos um patrimônio que a sociedade conhece, e eu vou defender esse patrimônio", discursou ele. A demissão de Dirceu foi definida no domingo. Naquele dia, Lula o convocou para uma conversa na Granja do Torto para informá-lo de que faria mudanças no ministério e de que precisaria do seu cargo. No encontro, Lula pediu ao ministro que o ajudasse na tarefa de reorganizar o governo. Ficou acertado, naquele momento, que Dirceu deixaria o governo junto com outros ministros. Na quarta-feira, abatido com o depoimento de Roberto Jefferson ao Conselho de Ética da Câmara, o ministro da Casa Civil decidiu que pediria demissão a Lula em caráter irrevogável. Ele avaliou que a única maneira de se defender dos ataques seria reassumindo o mandato de deputado na Câmara. Parlamentares do PT, amigos e ministros próximos a Dirceu tentaram convencê-lo de que seria melhor esperar o anúncio da reforma ministerial, para descaracterizar a demissão como um resultado das denúncias de Jefferson. O apelo fez Dirceu adiar o pedido de demissão por um dia. Ontem, ele almoçou com um pequeno grupo de petistas, a quem, novamente, avisou que deixaria o ministério. "Quero ficar à vontade para falar o que quiser na reunião do diretório nacional do PT (agendada para amanhã, em São Paulo)", justificou Dirceu. A reunião do PT foi convocada para debater a crise política vivida pelo governo e especialmente pelo partido. Hoje, Dirceu reunirá, também na capital paulista, os partidários de sua corrente no PT - o Campo Majoritário -, para definir a estratégia a ser adotada no encontro do diretório. Ontem, o ministro chamou cinco petistas para jantar em sua casa - os deputados Arlindo Chinaglia (líder do governo na Câmara), Professor Luzinho, João Paulo Cunha, Luiz Eduardo Greenhalgh e Paulo Rocha (líder do PT na Câmara). Uma das preocupações de Dirceu, neste momento, é evitar que, por causa das denúncias, a esquerda assuma o controle do PT, na eleição prevista originalmente para acontecer em setembro. "Vou também voltar como militante-dirigente ao PT que é, na verdade, a minha vida. Vou voltar para junto, ao lado, e apoiando o presidente (José) Genoino", prometeu.