Título: PTB deve referendar Jefferson no comando
Autor: Henrique Gomes Batista
Fonte: Valor Econômico, 17/06/2005, Política, p. A10
O diretório nacional do PTB reúne-se hoje com um roteiro traçado por seu presidente, deputado Roberto Jefferson (RJ), que a cúpula do partido, ligada ao governo, ainda tentava desfazer ontem à noite a fim de transformar o encontro numa "reunião de paz". Há um desconforto entre o ministro Walfrido Mares Guia (Turismo) e Jefferson. Atendendo a orientação partidária, Walfrido entregou sua carta de demissão ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente nem quis receber o documento: "Eu não vou nem olhar isso", disse Lula ao ministro do Turismo. Walfrido é peça importante para o governo conseguir manter o apoio dos 47 deputados que integram a bancada do PTB na Câmara. Jefferson havia acertado com a cúpula pedir licença da direção, enquanto durasse a investigação sobre a denúncia que fez sobre pagamento de mesada a deputados e a de seu suposto envolvimento no esquema de corrupção nos Correios. O apoio que recebeu após a denúncia sobre o pagamento de "mensalão" - em apenas um dia, recebeu mais de 1.500 e-mails de apoio - levaram o deputado a rever sua posição. A idéia de Roberto Jefferson agora é levar o PTB, na reunião do diretório nacional, a romper com o governo. O partido, assim, ficaria na mesma posição adotada pelo PMDB, que rompeu partidariamente com Lula em dezembro do ano passado, mas que continua com os cargos que detêm no governo, além apoiar o presidente no Congresso, embora de forma dividida. Com isso, Jefferson daria um sinal de " descomprometimento" do PTB em relação a eventual recandidatura do Lula nas eleições de 2006. seria a primeira baixa eleitoral do presidente, entre os partidos que integram a base aliada do governo. A bancada do PTB na Câmara reagiu e resolveu tirar uma moção de apoio ao presidente, em reunião da qual participaram 40 de seus 47 deputados federais. O argumento da bancada é que o próprio Jefferson reconheceu, em seu depoimento na Comissão de Ética da Câmara, que o presidente Lula " é íntegro e chegou a oferecer um cheque em branco a Roberto Jefferson - não há, portanto, por que não retribuir à confiança", diz um integrante da cúpula petebista. Além disso, os problemas "´sérios" de Bob [Jefferson] seriam com o PT e não com o presidente. Na realidade, o PTB quer ficar com o governo porque não tem "pra onde correr", segundo expressão de um dirigente. Com as denúncias de Jefferson - argumenta um governista da legenda -, o partido brigou ao mesmo tempo com o PT, o PP e o PL. Como já é adversário - no Congresso - de PSDB e PFL, ficou sem alternativa. Poderia até perder os cargos que dispõe para acomodar outra sigla que venha a compor o governo, como o PMDB. Na conversa que teve com Walfrido, quando recusou seu pedido de demissão, Lula manifestou o desejo de que ele e o PTB permanecessem no governo. Argumentou que o apoio do PTB no Congresso era importante para a governabilidade. Mas os dirigentes petebistas temem que uma eventual declaração de rompimento do diretório nacional, na reunião marcada para hoje, possa levar o presidente a rever a posição manifestada a Walfrido. Para tentar mudar a posição de Jefferson e fazer hoje uma "reunião de paz", a cúpula governista do PTB teria uma conversa ontem à noite com o deputado. A proposta a ser feita a ele seria a seguinte: ele fica na presidência do partido, como deseja, mas nada decide em relação à ruptura com o governo. Assim, a bancada poderia se entender diretamente com o Planalto, sem maior constrangimento. Não havia decisão até o fechamento desta edição. A cúpula governista acha que não tem votos para enfrentar Roberto Jefferson no diretório nacional, sobretudo agora, depois que ele passou a ser aclamado pelas denúncias que fez sobre a existência de "mensalão" no Congresso - o pagamento de mesada a deputados do PP e PL.