Título: Economia argentina já dá sinais de desaceleração
Autor: Paulo Braga
Fonte: Valor Econômico, 17/06/2005, Internacional, p. A11
Conjuntura PIB cresce apenas 0,5% em relação ao último trimestre de 2004
A economia argentina continuou crescendo a um ritmo forte no primeiro trimestre deste ano, mas o resultado mostrou uma leve desaceleração e ficou abaixo do esperado pelos analistas. O Produto Interno Bruto (PIB) do país teve uma alta de 8% em relação ao primeiro trimestre do ano passado. Mas, em relação ao quarto trimestre de 2004 a expansão, em termos desazonalizados , a expansão foi de 0,5%.
"O crescimento comparado com o trimestre anterior é o mais baixo desde o segundo trimestre de 2002", notou o analista Esteban Medrano, da consultoria Macrovisión. Medrano considerou que o dado mais chamativo entre os números divulgados ontem é a diminuição do crescimento do investimento interno bruto, que nos três primeiros meses deste ano teve uma alta de 13,9% contra 34,4% no trimestre anterior. Com a diminuição do investimento, a expectativa é que para manter o ritmo da economia será preciso contar com injeção de dinheiro pelo Estado, por meio do aumento do gasto, particularmente em obras públicas. As autoridades também vêm adotando medidas de estímulo à demanda, como o reajuste das aposentadorias mínimas anunciado anteontem. A partir do mês que vem, o benefício subirá de 308 para 350 pesos, afetando 2,4 milhões de pessoas. Também vem aumentando a pressão para reajustes salariais em diversas categorias, e os conflitos trabalhistas estão crescendo (leia texto abaixo). Paralelamente, o estímulo ao crescimento dificilmente virá com uma retomada de investimentos pelo setor privado, porque o período pré-eleitoral é tradicionalmente marcado por uma postura de cautela entre os empresários. O país terá eleições parlamentares em outubro, e o presidente Kirchner já definiu o pleito como um plebiscito à sua gestão, considerando a disputa decisiva para que possa consolidar sua base de sustentação política. Medrano estima que, para que o país encerre este ano com uma taxa de crescimento superior a 6%, a expansão trimestre a trimestre tem de superar 1%, e isso só será possível com uma forte expansão do gasto público. A preocupação principal é que a oferta não seja suficiente para responder a esse estímulo à demanda, já que muitos setores da indústria estão operando à beira do limite de sua capacidade de produção. Apesar disso, também foram divulgados ontem dados positivos sobre a produção industrial, que cresceu 8,5% em relação a maio de 2004 e 1,5% na comparação com o abril. Os números são uma indicação de que a indústria vem conseguindo manter taxas de crescimento forte e os problemas energéticos ainda não tiveram impacto sobre a produção. O maior temor no futuro imediato é que a política oficial de estímulo à demanda acabe alimentando a inflação, que no mês passado voltou a um patamar razoável, de 0,6%, após atingir o pico de 1,5% em março. A previsão é de que o índice para todo o ano fique pouco abaixo de 10%, mas poucos duvidam da disposição de Kirchner de deixar a inflação subir um pouco mais para manter o ritmo de crescimento num patamar elevado pelo menos até o final do ano.