Título: Irã vai às urnas em meio a decadência econômica e desilusão política
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 17/06/2005, Política, p. A11

A falta de perspectiva de mudanças econômicas e políticas no Irã deve levar ao maior boicote às urnas da história recente do país, nas eleições presidenciais de hoje. A expectativa é comparecimento inferior a 50%, o que não ocorre desde a Revolução Islâmica, em 1979. Nas ruas, o sentimento é de indiferença, apesar da sofisticada propaganda eleitoral em outdoors. Há um clima de desilusão com um sistema político que não agrada e com promessas de reformas bloqueadas pela cúpula religiosa. O presidente Mohammad Khatami apelou à população para que mostre ao mundo que a democracia está estabelecida no Irã, insistindo que um alto comparecimento daria mais legitimidade ao sucessor. "Espero que o povo responda aos que gostariam que o Irã permanecesse um país dependente e retrógrado." Após dois mandatos, ele não pode se candidatar. O presidente dos EUA, George Bush, fez ontem uma crítica dura à eleição no Irã: ela nada mais fará que manter no poder o grupo de conservadores que já controla o país, ignorando premissas democráticas e cerceando a liberdade. "O poder está nas mãos de um punhado de pessoas que não foram eleitas, mas que mantém o poder por meio de um processo eleitoral que ignora as demandas básicas da democracia", disse Bush, lembrando o veto à candidatura de centenas de reformistas. "A eleição está infelizmente alinhada com o histórico opressor do país." O Irã compunha, com o Iraque e a Coréia do Norte, o "eixo do mal", citado por Bush em discurso em 2002. Os EUA mantém um embargo comercial contra o país. Sete candidatos disputam a eleição. Embora não haja pesquisas de intenção de voto confiáveis, a expectativa é de vitória do aiatolá (alto clérigo islâmico) Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, de 70 anos. Ele foi presidente de 1989 a 1997, quando priorizou questões econômicas em detrimento de abertura política. Foi criticado à época por permitir abusos dos direitos humanos e barrar reformas sociais. Embora tenha sido uma figura central na implantação da Revolução Islâmica, Rafsanjani hoje se diz ser um conservador pragmático. Ele tem dito o que os iranianos querem ouvir: que é preciso modernizar o país tanto em termos materiais como de costumes. E defende também uma melhora das relações com Washington. Em segundo lugar está Mostafa Moin, ex-ministro da Educação e o candidato reformista mais conhecido, que de início havia sido impedido de concorrer pelo Conselho de Guardiães (órgão máximo do país), que proibiu mais de 2 mil reformistas de concorrer nas eleições legislativas do ano passado. Há boa chance de haver segundo turno, pois parece improvável que algum candidato obtenha os 50% de votos necessários para vitória imediata. O segundo turno seria realizado daqui a uma semana. Mas quem quer que ganhe a eleição não terá poder de fato. O líder espiritual aiatolá Ali Khamenei é quem manda no país. Além de comandar as Forças Armadas, é ele que dá a palavra final no governo. A força de Khamenei e do Conselho dos Guardiães acabou por engessar as intenções do reformista Khatami, eleito com amplo apoio popular em 1997 e 2001, com a promessa de flexibilizar as rígidas regras de conduta do país. Seu eleitorado era formado majoritariamente por mulheres, intelectuais e jovens - 65% do eleitorado tem menos de 30 anos. A situação econômica tampouco melhorou na gestão Khatami. Milhões de jovens iranianos - boa parte com diploma universitário - estão sem emprego, enquanto seus pais mantém dois ou três empregos para manter a família. Embora a taxa oficial de inflação tenha sido de 11,2% em 2004, analistas estimam que os preços tiveram alta real de 20%. Uma nova leva de jovens empreendedores de Teerã, muito ativos em negócios que vão de tecnologia de informação (TI) a bares, culpam a economia fortemente estatizada pela falta de empregos. Nenhum dos candidatos à Presidência deixa de concordar que a economia iraniana deve ser privatizada, mas o Estado ainda precisa encontrar compradores para seus ativos, em meio à instabilidade política do país. A atual disputa em torno do programa nuclear do Irã reduziu o apetite dos estrangeiros de investir no potencial mercado iraniano. Os EUA acusam o Irã de querer fabricar armas atômicas, num programa nuclear secreto. Apesar de ter gigantescas reservas de gás e petróleo, o Irã diz necessitar de tecnologia nuclear para atender à crescente demanda energética. Graças ao preços recordes de petróleo, a economia iraniana importou de forma feroz nos últimos meses, de sapatos chineses a cosméticos que enfeitaram as vitrines luxuosas dos bairros ricos da capital. Foram mais de US$ 36 bilhões em produtos no ano fiscal terminado em março, uma alta de 24% em relação ao período anterior. Mesmo assim, o cenário econômico não é otimista. Para o economista Mousa Ghaninejad, a elevada burocracia, o controle estatal, os monopólios e a falta de investimentos externos freiam o país. "Há 30 anos, a renda per capita deste país era o dobro da registrada na Turquia. Agora, é metade", diz Mousa. Para ele, esses serão os principais desafios para o próximo presidente.