Título: BC endurece e juro sobe meio ponto
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Fonte: Valor Econômico, 21/10/2004, Finanças, p. C-1
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu ontem, por unanimidade, endurecer o processo de elevação dos juros básico, com uma alta de 0,5 ponto percentual. Com isso, a taxa Selic sobe de 16,25% para 16,75% ao ano, sem viés. Em setembro, a alta havia sido de 0,25 ponto. No breve comunicado divulgado logo após a reunião, com apenas 32 palavras, a autoridade monetária afirma que a alta deu "prosseguimento ao processo de ajuste moderado da taxa de juros básicos", o que sinaliza que ainda virão novos aumentos pela frente. A alta foi mais forte do que o consenso dos analistas que, de forma geral, previam 0,25 ponto. Assim, a curva de juros futuros deve subir hoje, com provável efeito também sobre os custos de captação dos bancos e sobre os juros do crédito. Já em agosto, quando começou o aperto na política monetária, os membros do Copom haviam debatido a hipótese de uma alta mais forte nos juros. Na ocasião, três membros do comitê defenderam um tratamento mais de choque, com alta de 0,5 ponto, enquanto cinco preferiram uma estratégia mais gradualista, para evitar volatilidade no mercado. Desde junho o Copom vem dando sinais de que iria elevar os juros para fazer a inflação convergir para a trajetória das metas. O discurso sofreu progressivo endurecimento, primeiro com palavras e, a partir do mês passado, com juros mais elevados. Em seu relatório de inflação de setembro, o BC expressou sua preocupação com quatro fatores de risco ao cumprimento das metas de inflação. O principal deles é o crescimento da demanda agregada acima do que pode ser atendido pela oferta. Também apontou como riscos a alta dos preços do petróleo, a contínua deterioração das expectativas de inflação e o repasse ao varejo dos aumentos de preços do atacado. Em setembro, os modelos do BC projetavam uma inflação de 5,6% para 2005, acima da meta ajustada de 5,1% que será perseguida pelo Copom em 2005. No comando da área econômica, até se espera alguma reação política contrária à elevação dos juros básicos. Mas, importantes fontes do governo minimizaram a decisão. O deputado Arlindo Chinaglia, líder do PT na Câmara, disse que a decisão do Copom "decorre do aumento de preços do petróleo no mercado internacional" e que a opção por uma elevação da Selic foi "um mal menor". Após a reunião do Copom, Rodrigo Azevedo tomou posse no cargo de diretor de Política Monetária do BC, assumindo o lugar que ficara vago com a saída de Luiz Augusto Candiota. Com isso, na próxima reunião, em 16 e 17 de novembro, o comitê voltará a ficar completo, com nove membros. Para o consultor Miguel Daoud, da Global Financial Adviser, o BC, ao exacerbar o arrocho monetário, está combatendo dengue com antitérmico: estabiliza o doente mas pode provocar hemorragia fatal. "O remédio está errado. A inflação é claramente de oferta, já que a renda, que caiu 12% em 2003, ainda não se recuperou. O juro alto é um instrumento ineficaz para atacar inflação de oferta. Para ter impacto sobre ela, o juro terá de resfriar a economia como um todo". O economista Alex Agostini, da consultoria Global Invest, diz que o Copom terá de fornecer na ata desta reunião, que será publicada no dia 28, extensas explicações para o aumento acima do consenso. "Vai ter de mostrar claramente o que ele está vendo e o mercado não. Caso contrário, a expectativa é de nervosismo e incertezas", diz Agostini. O mercado estava ajustado a um ritmo de alta de 0,25 ponto até o fim do ano. A partir de hoje, o DI futuro terá de refazer as contas em um ambiente de insegurança até conhecer as explicações via ata. Para Agostini, a decisão de ampliar o arrocho foi precipitada. A justificativa pelo lado do petróleo não convence, dado o posicionamento sereno da Petrobras. O ponto relativo ao "hiato do produto", tão reiterado em atas passadas, também é insatisfatório. Até agora não surgiram dados concretos que demonstrem um descompasso entre oferta e demanda. "O BC pode estar se antecipando a um previsto, mas ainda não constatado, desequilíbrio entre as duas pontas", observa o consultor. Mas, com isso, pode reduzir o crescimento econômico, além de encarecer a dívida pública. A sua estimativa é de que apenas a alta de ontem da Selic irá aumentar em R$ 2,5 bilhões os gastos com a dívida. Alberto de Oliveira, economista do Banif Investment Banking, acha que o único fato que justifica esse aumento de 0,5 ponto é se o BC tem informação de que a Petrobras vai ampliar o ajuste dos preços dos combustíveis, informação que o mercado por enquanto não tem. Fora isso, outra possibilidade é que o BC tenha sido "maquiavélico" e tenha resolvido fazer a "maldade toda logo". Ele continua achando que em novembro vem mais 0,25 ponto. O economista-sênior para a América Latina do Dresdner Kleinworth Wasserstein (DrKW), Nuno Camara, gostou da decisão do Copom. Ele foi um dos poucos analistas a apostar numa alta de 0,5 ponto percentual da Selic. Para Camara, num cenário de disparada dos preços do petróleo, o BC mostrou que vai agir com firmeza para tentar trazer as expectativas de inflação mais perto da trajetória das metas. A inflação projetada pelo mercado para 2005 está em 5,81%, acima dos 5,1% do centro da meta ajustada para o ano que vem. "Foi um passo na direção correta, positivo para a credibilidade do BC, para garantir a sustentabilidade do crescimento da economia", afirmou ele, que espera manutenção dos juros em novembro - para analisar o comportamento da inflação, do petróleo e da atividade econômica - e uma alta de 0,25 ponto em dezembro. Camara avalia que um dos objetivos do BC foi elevar a estrutura a termo das taxas de juros, para desaquecer um pouco a atividade econômica. Para ele, os juros devem atingir 17% no fim do ano e tendem a voltar a cair no fim do segundo trimestre de 2005. O economista Marcelo de Ávila, da consultoria Global Station, acredita que a decisão do Copom mostra a independência do BC. Sinaliza que a Selic deve se posicionar no fim do ano acima dos 17% até então previstos consensualmente pelo mercado e revela muita preocupação com a escalada do petróleo. Mas ela coloca em dúvida a estimativa de um crescimento do PIB no que vem na casa de 3,5%. O economista-chefe do ABN Amro, Mário Mesquita, acreditava que o BC iria esperar um pouco mais para aumentar a dose do remédio. A alta acima do previsto revela, em sua opinião, preocupações mais graves com a esticada do petróleo e o nível de atividade econômica.