Título: Oposição apóia ajuste fiscal drástico, mas teme que idéia seja "oportunista"
Autor: Claudia Safatle e Taciana Collet
Fonte: Valor Econômico, 17/06/2005, Especial, p. A14

A oposição apóia as medidas de aperto fiscal planejadas pelo governo e antecipadas ontem pelo Valor, mas duvida que propostas drásticas e, muitas vezes, impopulares, possam sair do papel no atual cenário político. Entre as medidas estão propostas que garantam que o Brasil passe a contar com superávits nominais em cinco ou seis anos, a redução do custeio da máquina estatal e um Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para aumentar progressivamente a Desvinculação de Receitas da União (DRU), como forma de desengessar os gastos federais. "Se o governo estiver realmente interessado em fazer modificações estruturais pode contar conosco", afirmou o líder do PSDB na Câmara, Alberto Goldman (SP). Ele acredita, contudo, que talvez isso possa ser apenas um discurso para tirar o foco das denúncias de corrupção que estão atingindo o governo. Seu colega do Senado, Arthur Virgílio, também diz ter boa vontade com as medidas em estudo, porém mostra ceticismo sobre as chances reais destas propostas prosperarem. "Aceitamos discutir este assunto, há muitos economistas sérios que defendem estas alterações, mas não dá para acreditar que realmente isto vá ocorrer, este governo está sem credibilidade", afirmou. No PFL a reação foi semelhante. "Essas medidas são positivas, mas não acredito que há condições de adotá-las, são medidas para serem tomadas no início do governo, não agora", afirmou o líder do partido no Senado, José Agripino (RN). Lideranças governistas no Congresso também apóiam as medidas - consideradas impopulares por aumentar o arrocho fiscal -, mas avaliam reservadamente que não há condições políticas de se aprovar nada neste sentido no atual estágio do governo. Interlocutores do Planalto acreditam que este assunto está em fase embrionária, mas que somente a pré-disposição do debate pode ajudar o país a encontrar um caminho de maior austeridade nas contas públicas, favorecendo a economia e a situação externa do país. O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), afirmou que o governo "está sempre atento a melhorar a qualidade do gasto público e manter uma política de austeridade fiscal". Todas as sugestões neste sentido, segundo ele, estão sendo e serão analisadas pelo governo com toda a atenção. Ele admitiu que algumas discussões sobre o superávit nominal e desvinculação de receitas da União, conforme antecipou o Valor, começam a ser encaminhadas dentro do Executivo. "O ajuste fiscal precisa ser estruturado, duradouro e consistente", afirmou. Mercadante preferiu não opinar sobre o impacto e efeitos das mudanças estudadas pelo governo, até que sejam definidas. (Colaborou Maria Lúcia Delgado)