Título: Forças Armadas adotam software livre
Autor: Ricardo Cesar
Fonte: Valor Econômico, 17/06/2005, Empresas &, p. B3

Código aberto Marinha e Aeronáutica seguem Exército e elaboram plano para a migração de programas

No final de junho, a Marinha e a Aeronáutica apresentarão ao Ministério da Defesa seus planos formais para a adoção de software livre - programas de computador que podem ser instalados, copiados e modificados sem o pagamento de licença de uso - em todas as suas unidades. Com isso, seguirão o Exército, cujo projeto de migração foi aprovado em 22 de outubro de 2004 e se encontra em estágio avançado de execução. Cerca de metade dos mais de 30 mil computadores do Exército já mudou para sistemas livres. A expectativa é de que até o fim do ano a migração seja concluída. Segundo o gerente de informática e telecomunicações da administração central do Ministério da Defesa, Luiz Roberto Amaral Varreto, o objetivo é de que, em um futuro não muito distante, as Forças Armadas do Brasil operem quase totalmente baseadas em software livre. A migração será gradual, mas a idéia é de que em médio prazo somente alguns poucos softwares específicos que não apresentam similares em plataforma de código aberto sejam preservados. "Podemos manter alguma coisa em programas proprietários, mas a tendência é chegar a quase 100% de software livre nas Forças Armadas", diz Varreto. O Ministério da Defesa montou quatro grupos de trabalho para coordenar a mudança. Há uma equipe de visão estratégica geral para a implantação dos programas e outras três focadas em ferramentas de escritório (editor de textos, planilhas, programas de apresentação), servidores e banco de dados. "Queremos estabelecer um padrão para uniformizar as ferramentas de software", explica Varreto. "Cada força terá suas especificidades, mas vamos buscar interconexão e daremos acompanhamento aos planos." Varreto afirma que só terá condições de detalhar o número total de máquinas das Forças Armadas que serão modificadas e o cronograma da mudança após a apresentação dos planos formais da Marinha e Aeronáutica. Primeiro a apresentar um projeto de migração de software proprietário para programas livres, o Exército está repassando sua experiência para as demais unidades das Forças Armadas. O plano foi elaborado na assessoria técnica da extinta Secretaria de Tecnologia da Informação, atualmente sob a gestão do Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT). A Marinha, embora ainda esteja redigindo seu plano, já deu início ao projeto de mudança na prática. "É um esforço de todos", afirma Carlos Pereira Gil, coronel e gerente de software do DCT, responsável pela condução da mudança no Exército. Segundo Gil, cerca de 80% das mais de 30 mil máquinas da corporação que receberão software livre são computadores pessoais. "Já temos casos de sucesso. Unidades inteiras, inclusive o Gabinete do Comandante do Exército, já operam inteiramente em software livre." O coronel calcula uma economia inicial de mais de R$ 2 milhões por ano em licenciamento de software. Outro ponto favorável, segundo Gil, será a possibilidade de atender a uma demanda reprimida de R$ 11 milhões em licenças de programas de computador que o Exército não teve recursos para comprar. "O que estamos objetivando é diminuir o gastos", diz. Além da economia, o plano de migração visa a uma independência de fornecedores privados de tecnologia. "É uma questão técnica e econômica e, portanto, estratégica para o Exército. Também entra no critério de independência tecnológica e independência de um fornecedor único", diz. Outro fomentador é a política do governo federal de apoio ao software livre. "Como o governo decidiu adotar software livre na administração pública, o Exército não poderia se furtar a participar desse grande esforço nacional", afirma Gil. Entre os servidores - grandes máquinas que controlam as redes de computação e os programas mais pesados -, os sistemas que serão substituídos incluem o Unix, de diversos fornecedores, e a versão de Windows para servidores, entre outros. Nos computadores pessoais, a predominância era do Windows, da Microsoft. Nos servidores, o sistema escolhido pelo Exército é o Debian - uma variante do Linux. Para os computadores pessoais, está sendo feita uma personalização do programa Kurumin. A Marinha e a Aeronáutica devem seguir o mesmo caminho. Gil explica que no momento é difícil precisar o número exato de máquinas que o projeto abrange, porque as unidades do Exército são espalhadas pelo país e as aquisições não são centralizadas. Para facilitar o controle da mudança, o DCT pretende, nas próximas semanas, colocar no ar uma página na internet com banco de dados para levantar indicadores de desempenho. Todas as unidades do Exército acessarão o site e relatarão mensalmente a quantidade de máquinas que migraram para os sistemas livres, o grau de satisfação dos usuários e outros indicadores. Um dos maiores desafios é conseguir suporte técnico para os programas de código aberto. Para mitigar a questão, o Exército já realizou três cursos de "treinamento de multiplicadores", formando 40 profissionais em cada um deles. "São técnicos que voltam para suas regiões de origem e lá promovem as migrações e prestam suporte", diz Gil. Outro entrave é a resistência do usuário ao software livre, já que as pessoas não estão acostumadas a trabalhar com esses produtos. "A resistência à mudança está ocorrendo, é normal", diz Gil. Nesse caso, a forma escolhida para combater o problema é o uso de campanhas, por meio de textos veiculados internamente e até adesivos com mensagens como "Seja legal. Use software livre" ou "Software livre: use e copie à vontade".