Título: À espera da queda dos juros
Autor: Felipe Frisch
Fonte: Valor Econômico, 17/06/2005, EU &, p. D1

Procura por títulos prefixados no Tesouro Direto aumenta com expectativa de redução da Selic

Com a interrupção do processo de elevação dos juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na quarta-feira, a dúvida dos investidores agora é sobre quando virá a queda na taxa. A forma encontrada pelos investidores de garantir uma remuneração alta mesmo depois que a queda se concretizar é a compra de títulos públicos pelo sistema de negociação de papéis do governo pela internet, o Tesouro Direto. Desde dezembro do ano passado, a busca por papéis prefixados - que definem o ganho no momento da compra - tem se intensificado. Em maio, as Letras do Tesouro Nacional (LTNs, principal papel prefixado do governo) representaram 58,85% do total vendido pelo site. Em dezembro, essa fatia totalizava 38,43% dos R$ 39,84 milhões vendidos naquele mês. Em 2004, esta categoria acumulou 34,37% dos títulos vendidos. E, segundo operadores e especialistas no sistema, este percentual pode aumentar ainda mais ao longo deste ano, ou ao menos se manter elevado. Uma das explicações é o esforço do próprio governo em aumentar o perfil prefixado da dívida. Apesar de se comprometer a pagar uma taxa elevada, atualmente em 19,75% ao ano, a parcela maior de prefixados melhora a avaliação estrangeira a respeito da economia e dos papéis brasileiros. Isso porque, diante de uma crise, um eventual aumento de juros não aumentaria tanto as despesas do governo com o pagamento de juros da dívida. Os números dos papéis prefixados chamam atenção pois vêm acompanhando o crescimento, ainda que não constante, do volume de títulos vendidos pelo Tesouro Direto. Em maio, foram negociados R$ 48,069 milhões em papéis do governo. A média no ano tem sido de R$ 50,358 milhões por mês frente aos R$ 29,964 milhões médios do ano passado. Com os 1.471 novos cadastros de maio, o sistema ficou por um triz dos 40 mil investidores: fechou o mês em 39.999 pessoas físicas registradas. O operador Marcelo Giorgi, da mesa da corretora do Banco Real, avalia que não é só a alta taxa de juros do governo que estimula a compra dos papéis pré. Até porque estes títulos são avaliados como de risco mais elevado, pois perdem valor no mercado quando a expectativa é de que os juros se elevem. Essa perda de valor acontece justamente porque o papel tem um preço de resgate fixo, normalmente R$ 1 mil. Como os títulos são "marcados a mercado", o que muda é o preço a ser pago na compra e a remuneração é dada pela diferença entre os valores. No entanto, a tirar pelos clientes do Real, 98% permanecem com os papéis até o vencimento, o que lhes permite ignorar estas oscilações no mercado futuro. Só perde ou ganha mais dinheiro quem resolver se desfazer do título antes do prazo. A taxa acertada na compra só se concretiza para quem mantém o papel até o fim. A dificuldade para o investidor entender isso é uma herança da ausência da marcação a mercado na renda fixa brasileira até 2002. O aumento do gosto pelo risco não está só na escolha dos tipos de papéis, mas também pelo prazo, segundo ele. "O governo tem conseguido alongar os prazos e lançou no fim de maio e no começo de junho mais dois títulos pré com vencimento acima de dois anos", diz. Atualmente, há no sistema LTNs com vencimento em julho de 2007 e Notas do Tesouro Nacional da série F (NTNs-F, papéis prefixados que pagam juros semestrais), para janeiro de 2008. Um dos motivos para esse alongamento dos prazos é a possibilidade de pagar um imposto de renda menor, avalia João Borges, analista de investimentos da Máxima Asset Management. Desde janeiro, os investidores que permanecerem por mais de dois anos com os papéis pagam imposto de renda de 15% sobre os ganhos, e quem ficar entre um e dois anos tem tributo de 17,5%. Carteiras com prazo médio inferior a seis meses pagam IR de 22,5% e entre seis meses e um ano, 20%. Por conta da tributação decrescente, segundo ele, a procura pelo Tesouro Direto ganha força, pois cabe unicamente ao investidor controlar o prazo da aplicação, não ao gestor de um fundo, por exemplo. "O fundo não pode ficar trocando de vencimento, pois corre o risco de virar de curto prazo e perder o benefício tributário", diz. Ele lembra, no entanto, que as taxas nas LTNs mais longas já estão em queda após a manutenção dos juros pelo Banco Central. As chances de ganhos podem estar nos papéis mais curtos. Giorgi, do Real, acredita que a procura pelos papéis pré deve cair, já que a redução dos juros já está embutida no preço dos títulos.