Título: Trorion faz acordo, mas deixa empregados insatisfeitos
Autor: Marta Watanabe e Raquel Salgado
Fonte: Valor Econômico, 20/10/2004, Especial, p. A-12

Com 180 funcionários e faturamento mensal atual em torno dos R$ 2 milhões, a fabricante de colchões Trorion S.A. é a maior empresa que já passou pelo monitoramento aplicado pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 2ª Região nos casos de dissídio de greve por atraso de salários. O dissídio de greve foi instaurado em junho pelo Sindicato dos Químicos do ABC depois de dois dias de paralisação na empresa. De acordo com o processo, a companhia apresentava cerca de R$ 55 mil em valores atrasados, o que incluía salários, férias de alguns trabalhadores e pagamentos do Programa de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) previsto pela convenção coletiva de trabalho. No processo estabeleceu-se um cronograma de pagamentos que previa a quitação dos atrasados em seis parcelas planejadas até o fim de julho. O dissídio de greve foi suspenso até 14 de setembro para que o Judiciário pudesse monitorar o cumprimento do acordo e os pagamentos em dia dos direitos trabalhistas vincendos. A economista do tribunal, Tânia Christina Zotto, que acompanhou o dissídio da Trorion, explica que o cronograma foi estabelecido de forma a coincidir com datas de recebimentos previstos pela empresa. "Detectamos que a empresa elevou seu faturamento de R$ 900 mil mensais em junho para R$ 2 milhões em setembro. Claro que não há uma correlação direta, já que o cenário econômico contribuiu para o aumento de faturamento, mas a segurança concedida pelo monitoramento teve o seu papel", acredita. Ela lembra, porém, que o aumento de faturamento não evitou que a empresa saldasse com atraso cerca de R$ 3 mil relativos à última parcela do acordo, de R$ 6.912 mil, vencida em 31 de julho. "Verificamos que ela atrasou um valor relativamente baixo, mas teve um gasto de R$ 920 mil em matéria-prima. Ou seja, ela se financiou com os valores devidos aos trabalhadores em vez de negociar com os fornecedores", analisa a economista. "Isso é algo que o tribunal tenta evitar ao estabelecer o cronograma de pagamentos. Os parcelamentos são planejados para que a empresa consiga saldar os atrasados e manter a atividade, mas não para se financiar com os trabalhadores", acrescenta o economista Pedro Jorge de Oliveira. Embora a Trorion tenha saldado todos os valores em atraso que levaram ao dissídio, a empresa recentemente teve que voltar a negociar com os empregados. Mesmo com previsão de estabilidade aos trabalhadores até o fim do processo judicial, a fabricante de colchões demitiu 22 funcionários e queria parcelar as verbas rescisórias em 24 meses. Para Tânia, isso mostra que nem sempre a segurança funciona da melhor forma possível para a relação com o empregado. Em alguns casos, as empresas aproveitam o fôlego para aperfeiçoar a administração. "Em outros, a segurança funciona como escudo para medidas que não são sempre aceitáveis." Pasquale Musciacchio, diretor regional do Sindicato dos Químicos do ABC, diz que apesar de ser favorável ao monitoramento do TRT, a confiança dos trabalhadores na empresa não foi recuperada. "Estamos perdendo a paciência com a empresa. Eles querem parcelar pagamentos mesmo faturando R$ 2 milhões", reclama Musciacchio. Procurado, o representante da Trorion no processo de dissídio, Newton Miranda Filho, não retornou as ligações.(MW e RS)