Título: Montadoras voltam ao lucro e pedem redução de imposto
Autor: Marli Olmos
Fonte: Valor Econômico, 20/10/2004, Empresas, p. B-7

Com discurso já ensaiado pelas maiores montadoras do país, a indústria automobilística vai pedir hoje ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva redução de impostos e subsídios para facilitar o financiamento dos automóveis. Para a carga tributária, a idéia discutida nos bastidores do setor indica a proposta de redução de três pontos percentuais no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que hoje oscila entre 10% e 25%. Para a linha especial de financiamento, o setor vai sugerir ao governo o uso de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). O pedido de incentivos para aumentar as vendas chega no momento em que as montadoras comemoram a recuperação da rentabilidade. A Volkswagen vai atingir lucro operacional já neste ano e a Fiat já comemora lucro líquido. A Ford divulgou ontem lucro de US$ 59 milhões no terceiro trimestre de 2004 na América do Sul. A General Motors se prepara para atingir, em 2005, o primeiro lucro dos últimos oito anos. Entre as novatas, a Honda, que até agora não havia ganho dinheiro com a fábrica de automóveis no Brasil, também anunciou que já entrou no azul e a Toyota vai atingir em dezembro, o segundo ano consecutivo de lucro desde que começou a fabricar carros de passeio no país. Mas, segundo os fabricantes de veículos, não basta recuperar a rentabilidade para convencer as matrizes a liberar novos programas de investimentos; única forma, segundo dizem, de sustentar o aumento das exportações, que fizeram o setor quebrar recordes históricos de produção nos últimos meses. Os principais executivos da indústria automobilística dizem que precisam preencher a capacidade instalada - que cresceu em razão dos incentivos fiscais do país, liberados a partir de meados da década passada. Hoje, as montadoras ocupam 65% da capacidade. Precisam chegar a 85%, segundo os executivos. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, já teve uma prévia das reivindicações do setor na semana passada, quando sob o pretexto de convida-lo para a abertura do Salão do Automóvel em São Paulo, que ocorre hoje a noite, os presidentes das três maiores montadoras do país - Volkswagen, General Motors e Fiat - discutiram o assunto com ele. Lula aceitou o convite e deve ouvir mais discursos a respeito, na festa da abertura da feira. Um ensaio foi feito na própria feira ontem, durante o primeiro dia de apresentação do evento para a imprensa. Na sua primeira entrevista coletiva desde que assumiu o posto, em fevereiro, o presidente da Volkswagen do Brasil, Hans-Christian Maergner, defendeu impostos e juros mais baixos. Segundo ele, a única forma de preencher a capacidade ociosa do setor é fortalecer ainda mais o mercado interno, que deverá crescer cerca de 8% neste ano e em percentual semelhante no próximo, segundo os próprios fabricantes. "A expansão das exportações é limitada", disse o executivo, que falou sobre a viagem do grupo a Brasília. Maergner também falou a respeito da recuperação da lucratividade na companhia, obtida por força de reestruturação, redução de custos fixos e processos mais eficientes. "Os primeiros resultados começam a aparecer", disse o executivo. A Fiat é a única das grandes montadoras que publica resultados financeiros. Mas Maergner diz que em uma década, período em que o setor automotivo todo investiu cerca de US$ 30 bilhões no país, incluindo recursos públicos, as montadoras acumularam US$ 6 bilhões em prejuízos. Depois de fechar 2003 com prejuízo de R$ 268 milhões, a Fiat Automóveis está trabalhando no azul desde meados deste ano, segundo o superintendente da empresa, Cledorvino Belini, que também esteve no encontro de Brasília. "Estancamos a sangria", disse ontem, ao também defender estímulos para o crescimento das vendas no mercado interno. "O fato de estar no azul não significa estar em condições de atrair novos investimentos", disse.